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Virginia Raggi, do estrelato político italiano à corda bamba

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ROMA — Sozinha e contra tudo e todos, Virginia Raggi, advogada italiana de 38 anos tornou-se a primeira prefeita da História de Roma. Candidata pelo antissistema Movimento Cinco Estrelas (M5E), fundado pelo comediante Beppe Grillo, em junho passado ela venceu o candidato oficialista com mais de 67% dos votos. Cansados de escândalos de corrupção, de uma cidade suja, caótica e com péssimos serviços de transporte público, os romanos quiseram lhe dar uma oportunidade. Depois de anos de prefeitos de partidos tradicionais, por que não acreditar e uma jovem com pouca experiência política, que prometia coisas tão simples como resolver a coleta de lixo desastrosa?

Sete meses depois de sua eleição, nada mudou na capital italiana. Mais do que isso, Roma parece ainda mais suja do que antes, com gaivotas que, como se fosse num filme de Alfred Hitchcock, avançam sobre recipientes transbordando de lixo. E “a Raggi”, como dizem os romanos, está mais sozinha do que nunca, à beira de um precipício. Na semana passada, foi interrogada durante oito horas pela promotoria de Roma, que desde 24 de janeiro a investiga por abuso de poder e falso testemunho junto a Raffaele Marra, seu ex-braço direito, preso por corrupção em dezembro passado.

O calvário de Raggi começou quando, diante do desafio gigantesco de governar Roma, cercou-se de pessoas equivocadas, de governos anteriores. Marra, seu ex-vice-chefe de Gabiente, que está detido na prisão de Regina Coeli, não é um novato. Fez carreira com o prefeito pós-fascista Gianni Alemanno, depois, com Ignazio Marino, prefeito de centro-esquerda, e, finalmente, com os “grillini”, como são chamados os membros do M5E, maior partido político na Itália neste momento.

Raggi conheceu Marra quando era conselheira comunal. Quando ela ganhou a prefeitura de Roma, o napolitano de 44 anos e negócios escusos aproveitou a sua inexperiência e se tornou seu “Rasputin” — ou quem, na verdade, manejava os fios do Capitolino, sede da comuna.

A queda de Marra foi, para alguns, o princípio do fim de Raggi. É por sua culpa que ela agora é interrogada por abuso de poder e falso testemunho. O problema foi ter designado Renato Marra, irmão mais velho de Raffaele, à frente do Departamento de Turismo da comuna, com um aumento de salário recorde (já revogado). O pior é que Marra não é a única pedra no sapato de de Raggi. Outro personagem de seu círculo intimo, o ex-chefe de Gabinete Salvatore Romeo, também a complica: em janeiro de 2016, Romeo colocou em nome da futura prefeita um seguro de vida de € 30 mil.

Meses depois, ela o designou chefe de Gabinete, triplicando seu salário.

— Não sabia de nada sobre esse seguro, não renuncio. Tenho a confiança de Grillo — reagiu Raggi na semana passada.

De acordo com alguns meios de comunicação italianos, a questão política estaria ligada a um relacionamento amoroso entre ela e Romeo.

Dentro do M5E — movimente que tem como bandeiras honestidade, legalidade e transparência — o clima está quente. Um grupo dissidente liderado pela deputada Roberta Lombardi, rival histórica de Raggi, e que definiu Marra como “o vírus que infectou o movimento”, quer sua cabeça. A verdade é que, ao prever que Raggi seria investigada, no início de janeiro, Grillo decidiu mudar o código de ética do partido. Se antes de um funcionário deveria renunciar automaticamente caso fosse investigado pela justiça, agora não precisa mais.

A mudança teve uma finalidade muito clara: salvar Raggi. Mais além do desastre, ela representa o primeiro grande teste de governo do M5E, que sonha em ganhar as próximas eleições antecipadas — talvez em junho. O cenário de uma auto suspensão de Raggi — como pretende parte da legenda — ou de uma renúncia poderia naufragar esses planos. Por isso, Grillo decidiu blindar e defender a prefeita, pelo menos até as eleições.

Sob ataque da imprensa desde que assumiu — inclusive criticada pela “triste” árvore de Natal que montou na emblemática Praça Venezia — como se não fosse suficiente, Raggi está na mira por uma terrível crise financeira. Os especialistas acreditam, no entanto, que os monstros que a destroem não são apenas um sistema que ela não conhece, mas os chamados “poderes fortes”. Ou seja, os círculos de enorme influencia política, empresarial e de negócios com quem os prefeitos sempre tiveram que lidar, seja na esquerda ou não direita.

E eles não perdoam Raggi, principalmente, por ter retirado a candidatura de Roma para os Jogos Olímpicos de 2024, uma oportunidade rica de negócios para esses poderes fortes.

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