LONDRES - Professor de Direito da Universidade de Durham, Alan Greene, pesquisador especializado na área de contraterrorismo, acredita que reforçar as leis de segurança não é suficiente para impedir ações de extremistas como os de Londres e Manchester. Ele ressalta a importância da construção de relações de confiança entre a polícia e comunidades islâmicas no Reino Unido.
Até agora não há provas de que os terroristas de Manchester e de Londres tenham sido radicalizados pela internet ou tenham usado aplicativos criptografados. Por isso seria prematuro dizer que esses poderes reforçados são necessários. O Reino Unido já tem uma das redes de segurança antiterrorista mais poderosas e intrusivas do mundo. A Lei de Poderes Investigativos, aprovada em novembro, dá aos órgãos de segurança poderes substanciais para interceptar comunicações. Sabemos que indivíduos envolvidos no ataque de Londres foram reportados à polícia pela comunidade local. No entanto, por algum motivo, não foram tomadas providências. Isso sugere que o policiamento off-line e as boas relações com a comunidade são primordiais para enfrentar o terrorismo.
A polícia foi informada de suspeitas em relação a alguns dos atacantes, mas não foram tomadas medidas para vigiá-los. Isso pode ter acontecido por falta de recursos. O Prevent, o principal programa antiterrorismo do Reino Unido, pode demandar muitos recursos, pois é necessário tempo para construir uma relação de confiança entre comunidades e a polícia e entre oficiais e indivíduos sob liberdade condicional. Quando esta relação de confiança não é estabelecida, o Prevent pode despertar suspeita de certos setores das comunidades e acaba sendo contraproducente.
O atacante de Westminster (Khalid Masood) era conhecido da polícia por ofensas não terroristas cometidas no início dos anos 2000. Era uma “figura periférica”. O de Manchester (Salman Abedi) era conhecido de forma superficial. Além disso, acreditam que agiu sozinho. Dado o método do ataque, uma bomba, isso é surpreendente. Também sabe-se que uma pessoa informou a polícia sobre Khuram Shazad Butt, um dos atacantes do Borough Market, através da linha direta para denúncias. No entanto, novamente, não houve acompanhamento. Com relação aos ataques de Westminster e Borough Market, é compreensível que os planos não tenham sido detectados por não usarem alta tecnologia.
Por outro lado, se a polícia não tem recursos, é inevitável que priorize algumas investigações. Pode ter sido o caso dos três ataques deste ano. Mais recursos policiais certamente poderiam ajudar a melhorar as relações comunitárias. No entanto, depende de como esses recursos são gastos. Se são usados para dar aos agentes o poder necessário para construir relações de confiança com as comunidades em que trabalham e, principalmente, com os indivíduos com os quais lidam, então podem ser úteis. Mas se recursos são canalizados para mais medidas de segurança, isso poderia fazer mais mal do que bem. Por exemplo, em Birmingham verbas foram usadas para instalar uma rede de câmeras nas áreas muçulmanas. Foi contra-produtivo e prejudicou as relações entre a polícia e a comunidade.
O artigo 23 da Lei de Combate ao Terrorismo de 2006 aumentou a detenção preventiva de suspeitos de 14 para 28 dias após uma tentativa fracassada do governo de aprovar 90 dias de prisão preventiva. O período de 28 dias foi revisto pelo Parlamento e, em 2011, foi revertido para 14 dias, que continua sendo um tempo mais longo do que em qualquer outra democracia comparável. Nos EUA, por exemplo, são apenas dois dias. Além disso, é difícil entender como mais tempo de prisão preventiva teria impedido esses atentados já que os atacantes não eram alvo de intensa investigação policial. Muitas dessas medidas em discussão parecem ser simbólicas para mostrar que o governo está tentando fazer alguma coisa, seja essa coisa útil ou não.

