Francisco I mandou construir o Castelo de Chambord, em 1519, no Vale do Loire, para usá-lo como pavilhão de caça. Passou lá apenas umas poucas semanas, talvez nenhum aniversário. Pelo menos, sentiu o gostinho, antes de morrer, em 1547, de apresentar a propriedade real ao inimigo Carlos V, que deve ter ficado de queixo caído. Quase 500 anos depois, Chambord, declarado Patrimônio da Humanidade pela Unesco, está de volta ao círculo do poder. E à polêmica.
O presidente francês, Emmanuel Macron, passou o fim de semana na região de Loir-et-Cher, onde fica Chambord, para comemorar o aniversário de 40 anos (a data exata é dia 21, quinta-feira) com a mulher, Brigitte, a família e amigos mais próximos. Segundo a imprensa francesa, ele teria se encontrado com integrantes de uma tradicional associação de caça, na sexta-feira, e, no sábado, celebrou o aniversário num dos salões de Chambord. A administração do castelo, que recebe cerca de um milhão de turistas por ano, costuma alugar áreas da propriedade para eventos ao custo mínimo de € 625.
O palácio do Eliseu se apressou a afirmar que a viagem era particular, a primeira do presidente desde a eleição, e que ele arcou pessoalmente com todos os custos. Macron e seus convidados não se hospedaram em Chambord, mas na Casa dos Refratários, uma antiga propriedade rural transformada em refúgio quatro estrelas, vizinha ao castelo e com diárias entre € 800 e € 1.000.
Mas a questão não é apenas financeira, é sobretudo simbólica. Macron já havia dito que gostaria de devolver à figura do presidente um estatuto à parte, chegando a comparar a função com Júpiter, o líder dos deuses na mitologia romana.
A oposição, que já o chamava de “presidente dos ricos”, por conta de políticas como a retirada do imposto sobre fortunas e a redução de benefícios aos aposentados, viu na escolha do salão de festas mais uma prova do quanto o presidente está desconectado do povo francês. A senadora verde Esther Benbassa traçou um paralelo entre a festa de Macron e a decisão do governo de não aumentar o salário mínimo. Jean-Luc Mélenchon, líder da legenda França Insubmissa, de extrema-esquerda, afirmou que a ida a Chambord é “ridícula”:
— Sou tão republicano que tudo o que toca nos símbolos da realeza me exaspera — disse ele, ironizando. — Chambord é um pouco tradicional; são os reis da França da Renascença. Nada a ver com o obscurantismo liberal do qual ele é o portador.
Já Nicolas Dupont-Aignan, político da Frente Nacional, de extrema-direita, afirmou no Twitter, que “os tempos mudam, mas a oligarquia segue separada do povo”.

