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Inteligência britânica fica na berlinda com revelação de novas falhas

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LONDRES - O fato de dois dos três responsáveis pelos ataques em Londres na noite de sábado — que deixaram sete mortos e 48 feridos — serem conhecidos da polícia coloca novamente em xeque a eficácia da Inteligência britânica, que também monitorava Salman Abedi, autor do ataque suicida de Manchester. A Scotland Yard revelou na segunda-feira a identidade de dois dos terroristas: Khuram Shazad Butt, cuja guinada radical havia sido reportada por vizinhos, e Rachid Redouane, ambos moradores da região de Barking, na capital inglesa. O terceiro suspeito, ainda não identificado, também estaria no radar da polícia por vínculos com o Islã radical. No entanto, segundo Mark Rowley, da Brigada Antiterrorista, não havia elementos que indicassem que eles preparassem um atentado como o cometido na London Bridge e no Borough Market. Na segunda-feira, todos os dez detidos foram liberados pela polícia. Ismail Abedi, irmão do autor do ataque na Manchester Arena, também foi solto.

Aos 27 anos, Butt, também chamado de Abs, era velho conhecido dos serviços de segurança. Segundo o “Telegraph”, a guinada do muçulmano foi reportada às autoridades em pelo menos duas ocasiões. Além disso, ele havia sido suspenso das atividades da mesquita de seu bairro por seu comportamento inadequado e apareceu em um documentário sobre jihadistas no Reino Unido, veiculado no ano passado no “Channel 4” da TV britânica. Em “The Jihadis Next Door” (Os Vizinhos Jihadistas, em tradução livre), ele é filmado durante uma discussão com a polícia após rezar com uma bandeira negra associada ao Estado Islâmico em um parque de Londres. Ele foi entrevistado depois de voltar com a família do Paquistão, em 2014.

Rowley confirmou que Butt, cidadão britânico nascido no Paquistão, era conhecido pelos serviços de Inteligência britânico, o MI5, mas afirmou que não havia evidência de planejamento da ação. Mas Mohammed Shafiq, líder da Ramadhan Foundation, com sede em Manchester, revelou que havia sido “agredido verbalmente” por Butt em 2013 e que seu grupo era velho conhecido das autoridades. O incidente aconteceu no dia seguinte ao assassinato do soldado Lee Rigby, esfaqueado no sudeste de Londres. Na ocasião, Butt estava com o pregador Anjem Choudary, hoje preso.

“Butt me chamou de murtad, o que significa traidor em árabe, depois que confrontei Choudhury sobre seu apoio ao terrorismo. É claro que Choudhury e seu grupo de simpatizantes eram conhecidos pela polícia há muitos anos. Muitos de nós na comunidade muçulmana britânica temos exigido alguma ação contra eles em vão. Há questões sérias para as autoridades”, afirmou em nota.

Especialistas em segurança também expressaram apreensão. Dal Babu, ex-superintendente-chefe da Polícia Metropolitana disse que há “lições a serem aprendidas” sobre como as autoridades lidam com a informação que recebem das comunidades.

— Havia algumas luzes vermelhas piscando, no caso de Butt e de Salman Abedi. É bastante preocupante que as autoridades conhecessem os atacantes mas não tenham conseguido impedi-los — afirmou Michael Clarke, ex-diretor-geral do centro de estudos Rusi, à rede BBC.

Um ex-colega denunciou que Butt havia se radicalizado nos últimos anos com vídeos no YouTube do pregador Ahmad Musa Jibril e tentava justificar a barbárie sempre que conversava sobre terrorismo. Recentemente, havia sido expulso da Mesquita Jabir Bin Zayd, em Barking, após confrontações com o imã. Dezenas de imãs se recusaram a fazer rituais funerários para os agressores.

Ainda de acordo com o “Telegraph”, Butt era apoiador do grupo al-Muhajiroun, que exortou fiéis a não comparecerem às eleições. Outra vizinha alertou sobre as tentativas de pregar a crianças no bairro, dando-lhe doces em troca de ensinamentos, o que ela chamou de “lavagem cerebral”.

— Ele estava dizendo às crianças: “Estou preparado para fazer todo o necessário em nome de Alá, ainda que isso signifique matar minha própria mãe” — contou a mulher ao “Guardian”.

Rowley reconheceu que Butt havia sido investigado em 2015 e que as autoridades receberam vários alertas sobre seu comportamento. Mesmo assim, depois de examinar o caso, as autoridades chegaram à conclusão de que não havia indicadores de que ele estivesse envolvido em atividades terroristas ou que planejasse um ataque.

— Por isso, o caso foi levado a escalões inferiores das 500 investigações ativas sobre terrorismo. Não vimos nada que apontasse que ele tomaria naquele momento uma decisão errada — explicou.

Filho de pais paquistaneses, ele foi criado no Reino Unido e chegou a trabalhar na companhia de Transportes de Londres, por seis meses. Era torcedor do Arsenal, cuja camisa vestia durante o ataque, e morava com a mulher e dois filhos, um deles recém-nascido. Ainda há poucas informações sobre os outros autores do atentado. Um deles foi identificado como Rachid Redouane, teria entre 25 e 30 anos, e também usava a identidade Rachid Elkhdar. Ele, que não era conhecido da polícia, tinha cidadania marroquina e líbia, e viveu por um tempo em Dublin, onde se casou com uma britânica, em 2011, antes de voltar para o Reino Unido, em 2016.

Os três terroristas foram mortos no sábado durante uma rápida resposta policial. Eles avançaram com uma van sobre a calçada da London Bridge, atropelando dezenas de pedestres. Em seguida, se dirigiram até a área do Borough Market, onde abandonaram o veículo e esfaquearam pessoas pela rua. Segundo boletim do Hospital Royal London, onde 12 das 48 vítimas foram internadas, alguns dos sobreviventes estão em estado de choque após terem as gargantas cortadas.

— Eles ficaram assustados a tal ponto de não conseguirem falar — disse Malik Ramadhan, médico do hospital.

Centenas de londrinos participaram na segunda-feira de uma vigília no Potters Field Park. O prefeito Sadiq Khan, que também é muçulmano, disse que os terroristas não conseguirão dividir a cidade:

— Como um orgulhoso e patriota britânico muçulmano, digo que vocês não cometeram esses atos repugnantes em meu nome. Suas ideologias perversas não têm nada a ver com o real valor do Islã.

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