LISBOA - O incêndio florestal sem precedentes que causou comoção em Portugal, deixando até agora 64 mortos e mais de 70 feridos, expôs a vulnerabilidade do país para tratar esse tipo de incidente. A tragédia foi causada por uma conjugação extraordinária de fatores, como já havia acontecido em 2003: ao ar seco e temperaturas altas se somaram trovoadas secas e o vento forte. Na segunda-feira, mais de mil bombeiros continuavam a trabalhar intensamente para tentar conter as chamas, e a Autoridade Nacional de Proteção Civil de Portugal enviou um pedido de ajuda ao Mecanismo de Proteção Civil da União Europeia, solicitando um módulo aéreo de combate a incêndio.
— Estamos sempre focados no imediato, não se equilibra o orçamento entre a prevenção e o combate, não se pensa na gestão do território. Continuamos focados na proteção civil quando este é um problema de geografia física e humana, já com um século e meio, e que demorará décadas para ser resolvido — explicou ao “Público” José Miguel Cardoso Pereira, do Instituto Superior de Agronomia.
Apesar de o governo português ter garantido que a resposta inicial dos serviços de emergência foi rápida e adequada, muitos jornais locais e moradores questionaram a eficiência da operação e o planejamento estratégico em um país que está habituado a ver incêndios em áreas florestais todos os anos. “Faltou tratar de incêndios florestais por quem conhece a floresta. Faltou integrar prevenção e combate. Faltou ordenamento. Faltou pensar a longo prazo”, escreveu o jornal “Público”. “E adiou-se o mesmo de sempre: fazer da floresta uma prioridade, fazer de um terço do território nacional uma prioridade.”
O presidente da Associação Nacional de Bombeiros Profissionais (ANBP), Fernando Curto, denunciou na segunda-feira falhas de comunicação entre bombeiros e policiais em campo. Luciano Lourenço, diretor do núcleo de investigação de incêndios florestais da Universidade de Coimbra, lamentou que muitas das medidas previstas no Plano de Defesa da Floresta contra Incêndios (PNDFCI) nunca tenham saído do papel:
— Há anos que se fala na necessidade de criar faixas de segurança em torno das habitações e das unidades industriais. Bastava que essa medida tivesse sido implementada para que se tivessem evitado algumas destas mortes — apontou. — Além de poupar vidas, estas faixas de segurança fariam com que deixasse de ser prioritário colocar os bombeiros nas aldeias, permitindo que se concentrassem no combate ao incêndio.
Mais de 70 pessoas, incluindo 13 bombeiros, foram levadas para o hospital com queimaduras e lesões, enquanto os incêndios se alastravam para os distritos centrais de Leiria, Coimbra e Castelo Branco. O presidente Marcelo Rebelo de Sousa, no entanto, mostrou algum otimismo:
— Claro que tudo é muito relativo, mas neste momento tudo que encontramos superou as expectativas que tínhamos em relação a condições favoráveis.
Após um fim de semana com 40° Celsius em várias regiões do país, a temperatura registrou leve queda. Mas a chuva leve só causou um alívio modesto à população atingida e aos bombeiros exaustos.
— Ainda há muita floresta que pode queimar, e a chuva não faz muita diferença — disse Rui Barreto, vice-chefe dos bombeiros, no quartel-general improvisado dos serviços de emergência em Pedrógão Grande, enquanto trovões ecoavam nos céus sobre a cidade coberta de cinzas. Segundo autoridades portuguesas, um fenômeno meteorológico chamado de tempestade elétrica seria a causa mais provável do incêndio que começou na tarde do sábado.
Dois batalhões do Exército estão ajudando os serviços de emergência. Além do pedido de ajuda ao Mecanismo de Proteção Civil da União Europeia, “para responder à emergência”, quatro aviões de combate ao incêndio da Espanha e três da França chegaram ao país no domingo para ajudar os bombeiros portugueses.
Ao menos metade das vítimas morreu dentro de seus carros tentando fugir por uma via expressa local, e muitos outros corpos foram encontrados perto da estrada, o que leva a crer que provavelmente abandonaram seus automóveis em pânico. O primeiro-ministro português, António Costa, que no domingo visitara Pedrógão Grande, classificou o incêndio como a maior tragédia humana do passado recente do país. Já a ministra da Administração Interna de Portugal, Constança Urbano de Sousa, pediu na segunda-feira que as doações voluntárias às vítimas fossem suspensas, pois a onda solidária estava causando problemas logísticos:
— As necessidades neste momento estão cobertas — disse a ministra.

