BEIRUTE, MOSCOU e NOVA YORK — O nos arredores de Damasco no sábado e o bombardeio de uma base do regime de Bashar al-Assad no domingo geraram uma onda de acusações entre os atores envolvidos no conflito sírio na segunda-feira. Síria e Rússia acusam Israel de ter lançado mísseis contra a base militar, matando 14 pessoas, entre elas quatro combatentes iranianos. Já no Conselho de Segurança das Nações Unidas, os embaixadores dos EUA, Nikki Haley, e da Rússia, Vassily Nebenzia, trocaram acusações e ameaças, enquanto, no Twitter, o presidente americano, Donald Trump, acusou diretamente os governos de Síria, Irã e Rússia pelo ataque de sábado, e afirmou que os envolvidos “pagarão um alto preço” pelo apoio ao regime sírio.
“Muitos mortos, incluindo mulheres e crianças, em um ataque químico sem sentido na Síria. A área está isolada e cercada pelo Exército sírio, o que a deixa completamente inacessível para o mundo exterior. O presidente (russo, Vladimir) Putin, a Rússia e o Irã são responsáveis por apoiar o animal do Assad e terão um alto preço a pagar”, escreveu Trump na rede social, prometendo uma decisão sobre o tema em até 48 horas.
— Não podemos permitir atrocidades como esta — reforçou, depois, a repórteres.
Putin telefonou à chanceler federal alemã, Angela Merkel, e afirmou que Moscou não aceitará “provocações e especulações”.
“Os dois líderes discutiram a situação na Síria, incluindo as acusações de ataques químicos feitas por diversos Estados ocidentais contra o governo sírio. A Rússia comunicou sua posição, de que usar esse incidente como uma oportunidade para provocações e especulações é inaceitável”, afirmou o Kremlin em comunicado.
O chanceler russo, Sergei Lavrov, destacou que Rússia e Síria haviam alertado para ações provocatórias na Síria que teriam como objetivo acusar Damasco de usar agentes tóxicos contra a população civil. De acordo com Lavrov, Moscou apoia uma investigação “honesta e imediata” sobre o incidente, e militares russos e representantes do Crescente Vermelho Sírio visitaram o local do suposto ataque e não encontraram traços de uso de substâncias químicas. A Organização para a Proibição das Armas Químicas (Opaq) anunciou na segunda-feira que investiga as informações sobre o caso.
— A Opaq fez uma análise preliminar das informações sobre a suposta utilização de armas químicas — afirmou o diretor geral da organização, Ahmet Uzumcu. — Mais elementos serão reunidos para estabelecer se houve uso de armas químicas.
O grupo de defesa civil Capacetes Brancos divulgou vídeos em que aparecem vítimas, muitas delas crianças. No entanto, não conseguiu confirmar de forma independente a origem do ataque ou o número de vítimas. ONGs como Médicos Sem Fronteiras e o Observatório Sírio para os Direitos Humanos também não confirmaram o uso de agentes químicos. Já o chefe da ONG Human Rights Watch, Kenneth Roth, classificou o suposto ataque como um crime de guerra e pediu pressão sobre o governo russo.
— Este uso de armas químicas contra civis abrigados em seus porões é parte de um padrão amplo, não apenas de um padrão de uso de armas químicas, mas um padrão de alvejar civis que vivem em áreas mantidas pela oposição — disse Roth.
Lavrov também defendeu uma investigação sobre o ataque à base militar síria nos arredores de Homs. Embora o chanceler não tenha apontado um suspeito, o Ministério da Defesa da Rússia afirmou que o bombardeio foi realizado por dois caças F-15 israelenses a partir do espaço aéreo do Líbano, e que sistemas de defesa aérea sírios conseguiram derrubar cinco dos oito mísseis disparados. Inicialmente, o governo de Assad culpara os EUA pelo ataque, mas Washington e seus aliados britânicos e franceses negaram envolvimento. A própria imprensa israelense tratou o bombardeio como obra das Forças Armadas do país.
No Conselho de Segurança da ONU, o embaixador russo, Vassily Nebenzia, negou o ataque químico e alertou que tropas russas foram deslocadas, o que poderia levar a “graves repercussões”. Em resposta, a embaixadora americana, Nikki Haley, afirmou que Washington responderá, independentemente de ações do Conselho.
— Chegamos ao momento em que o mundo precisa ver a justiça sendo feita — afirmou Haley. — A História se lembrará deste momento como aquele em que o Conselho de Segurança cumpriu seu papel ou demonstrou seu completo fracasso na proteção do povo sírio.
Nebenzia também acusou Londres e Paris de participarem de uma campanha contra a Rússia.

