WASHINGTON — Após três dias de revolta pelo Twitter, o presidente americano, Donald Trump, anunciou nesta terça-feira que planeja enviar militares para proteger a fronteira dos EUA com o México, além de ameaçar o governo de Honduras — aliado da Casa Branca — e afirmar que vai exigir maior produtividade dos juízes que analisam os casos de deportação. A escalada contra a imigração ilegal coincide com o avanço da caravana de 1.200 pessoas da América Central aos EUA e ocorre depois que Trump se encontrou, no fim de semana, com pessoas tidas como “linha-dura” nas questões migratórias.
O presidente não detalhou quantos militares serão enviados para a fronteira e nem o tempo da ação. Apenas disse que ocorreria “enquanto não se construísse o muro” — promessa de campanha que até agora não teve orçamento aprovado — e que o secretário de Defesa, Jim Mattis, estava a par do caso. Desde 2010, militares não atuam na área, quando Barack Obama enviou 1.200 soldados a fim de provar que estava fazendo o suficiente para conter a entrada de imigrantes ilegais.
— Vamos fazer as coisas militarmente — disse Trump. — Até que possamos ter um muro e segurança, vamos vigiar nossa fronteira com as Forças Armadas. É um grande passo.
O envio de militares ocorreria no momento de menor apreensão de imigrantes na fronteira com o México desde 1971: de acordo a Patrulha Fronteiriça, no ano fiscal de 2017, encerrado em setembro, foram detidas 310.531 pessoas, forte queda em relação às 415.816 detenções do ano anterior. A motivação de Trump, no entanto, é a Caravana de Imigrantes formada na fronteira do México com a Guatemala, com cerca de 1.200 pessoas — muitos deles menores e mulheres. Organizada anualmente desde 2010 pela ONG Pueblo Sin Fronteras. Agora, no entanto, ela entrou no centro das atenções após a reação do presidente.
— Não sei se isso ocorrerá, pode assustar as pessoas que vivem na fronteira, não acredito que seja uma boa ideia — disse ao GLOBO David Bier, especialista em política migratória do Cato Institute. — Esse é mais um sinal negativo para o México em especial e para os países da América Latina em geral, justo em um momento em que os mexicanos estão em um processo eleitoral.
Trump exigiu que o México detenha a caravana e ameaçou cortar a ajuda humanitária que o governo dá a Honduras por causa do grupo. Juntamente com El Salvador e Guatemala, o país faz parte do chamado “Triângulo Norte”, uma das regiões mais violentas do mundo. No ano passado foram deportadas 74.789 pessoas para os três países, ou um em cada três deportados dos EUA no primeiro ano fiscal do presidente Trump.
O México reagiu a Trump, que acusou o país vizinho de não fazer “nada” para conter a caravana, ameaçando tirar dos mexicanos “a vaca de dinheiro” que é o Nafta (Acordo de Livre-Comércio da América do Norte). O Ministério do Exterior mexicano disse que não promove o fluxo irregular de pessoas na divisa, nem “toma decisões de imigração pelos EUA ou qualquer outra nação”.
Já o governo de Honduras rejeitou a ameaça de cortar a ajuda ao país, um dos mais fiéis aliados do republicano.
— Acho que ele não está bem informado, está usando injustamente Honduras em um debate político que ele tem com o Congresso dos EUA — afirmou o porta-voz da Presidência, Ebal Diaz. — As causas da emigração são a violência e o tráfico de drogas. O que o presidente Trump fez para reduzir a demanda pelas drogas que entram nesse mercado (nos EUA) que gera violência em nosso país?
Segundo o “Washington Post”, há muita apreensão dos participantes da caravana.
— Estamos com medo, assim como vocês — afirmou Irineo Mujica, coordenador do movimento, ao grupo reunido em uma praça na região central do México. — Agora o presidente Trump disse que quer nos atingir com bombas nucleares.
Na verdade ele se referia à chamada “opção nuclear”, como Trump denomina a alteração dos quóruns mínimos para aprovar leis migratórias no Congresso. Atualmente, são necessários 60 votos no Senado para novas legislações sobre o tema, e o Partido Republicano conta com apenas 51 cadeiras. Trump também disse que o Daca, programa de Obama para proteger imigrantes que chegaram aos EUA ainda crianças, está “morto” e defendeu que os juízes que tratam de deportação tenham uma maior produtividade — o Departamento de Justiça quer que os juízes liberem pelo menos 700 casos por ano para serem classificados como “desempenho satisfatório”. O sindicato da categoria disse que isso “arrisca a independência do Judiciário”.
O presidente, por sua vez, esteve no fim de semana com Jeanine Pirro e o apresentador da Fox News Sean Hannity, entre outros contrários à imigração. Segundo a CNN, muitos aconselharam Trump a abandonar debates de difícil assimilação, como a guerra comercial contra a China, e voltar ao tema.
— Um populista sempre precisa de um inimigo, e a imigração é um grande cavalo de batalha para grande parte dos eleitores de Trump — opinou Juan Carlos Hidalgo, do Cato Institute. — E isso mostra um viés perigoso, onde Trump parece se guiar cada vez mais pelos comentaristas da Fox que por seus assessores políticos.

