Ernesto rebate críticas, nega atrito com China e diz que relação com EUA permanece sob Biden

Por Folha de São Paulo / Portal do Holanda

02/03/2021 14h34 — em Mundo

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo, rebateu nesta terça-feira (2) os críticos que o acusam de conduzir uma política externa prejudicial aos interesses do Brasil e afirmou que o país mantém uma "visão estratégica" com os Estados Unidos, mesmo na gestão do democrata Joe Biden.

As declarações ocorreram numa rara entrevista coletiva, em que o chanceler colocou foco em temas comerciais e deixou em segundo plano a pauta conservadora que marcou seus dois anos à frente do Itamaraty.

Ernesto se queixou que exista a opinião que sua gestão "é prejudicial aos interesses nacionais", sobretudo na dimensão comercial.

"Temos alguns parâmetros para mostrar que não é absolutamente assim. Nosso saldo comercial cresceu nos últimos dois anos", afirmou o ministro, lembrando que a balança comercial do país atingiu no ano passado US$ 50 bilhões (R$ 285 bilhões) --resultado impulsionado principalmente pelas vendas do agronegócio.

O chanceler abordou em boa parte de sua fala a relação bilateral do Brasil com os Estados Unidos.

Nos dois primeiros anos do mandato de Jair Bolsonaro, o governo apostou suas fichas numa aliança com o então presidente americano, Donald Trump.

A política ficou conhecida como "alinhamento automático" e gerou críticas de analistas, principalmente após a derrota do republicano para Biden na eleição de novembro do ano passado.

Ernesto argumentou que construiu uma "estrutura de confiança" com os americanos.

"Isso não foi interrompido com a mudança de governo nos EUA. Mas claro que uma relação profunda como a que estávamos construindo, num país democrático, não se transpõe às vezes automaticamente quando muda o governo, porque depende de um encaixe. Mas esse encaixe continua sendo totalmente possível", disse o ministro.

"Todos os sinais são de que essa visão estratégica permanece e continuará rendendo esses resultados".

Apesar do tom moderado, Ernesto atacou iniciativas da sociedade civil que, segundo ele, atuam para "criar deliberadamente uma imagem distorcida do Brasil no exterior".

Ele se referiu a um seminário organizado na Universidade Harvard e ao relatório entregue a autoridades do governo Biden, elaborado por acadêmicos e ONGs, recomendando a suspensão de acordos entre os EUA e a administração Bolsonaro.

"É basicamente uma obra de ficção, muito ruim em termo de estilo. Uma obra de ficção que procurou ser vendida e apresentada como a realidade do Brasil".

Ele também criticou a carta de ex-ministros do Meio Ambiente endereçada aos governos de França, Alemanha e Noruega, em que os autores denunciam a devastação causada pela Covid-19 na região amazônica.

Para o chanceler, esse tipo de iniciativa "afeta nossos interesses" e prejudica a implementação do acordo comercial assinado entre o Mercosul e a União Europeia.

Ernesto foi questionado em mais de uma ocasião sobre as relações do Brasil com a China e sobre os episódios em que o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) -filho do presidente da República- bateu boca nas redes sociais com o embaixador chinês em Brasília, Yang Wanming.

No primeiro choque, Eduardo responsabilizou o governo da China pela disseminação do coronavírus, o que fez Yang reagir e classificar a fala do parlamentar de "insulto maléfico" contra o povo chinês.

Meses depois, Eduardo acusou a China de querer espionar outros países através da tecnologia 5G, o que desencadeou nova resposta da missão diplomática.

Nas ocasiões, o Itamaraty repreendeu a embaixada da China no Brasil.

"O que aconteceu no caso foi uma opção diferente [da embaixada], um embate nas redes sociais, contestando inclusive a liberdade de expressão que rege no Brasil. Num tom assim, em alguns casos, meio de ameaça em relação à sociedade brasileira, dizendo que quem fala mal da China vai se arrepender. Isso é completamente fora da prática diplomática. Procuramos chamar a atenção para isso", disse Ernesto .

"Isso não gerou absolutamente nenhum problema com a China", complementou. Segundo ele, a "chamada de atenção" do governo Bolsonaro teve "bom resultado no sentido de uma atuação mais correta por parte da embaixada" do país asiático.

Em outro momento, ele afirmou que a atuação da embaixada chinesa nos episódios com Eduardo estava "prejudicando a imagem da China no Brasil".

O ministro das Relações Exteriores foi questionado diretamente sobre a informação de que, em expediente sigiloso, ele chegou a pedir a Pequim a substituição do embaixador da China no Brasil.

O caso foi publicado pelo jornal Folha de S.Paulo. A China ignorou os pedidos.

O ministro não respondeu à pergunta e reiterou que o relacionamento com o governo chinês é positivo.

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