LONDRES - As duas câmaras do Parlamento britânico, um dos mais antigos do mundo, funcionam normalmente na quinta-feira, um dia depois do ataque que deixou cinco mortos no coração de Londres, levando o terror a um dos principais símbolos da democracia europeia. A primeira-ministra Theresa May informou que, apesar do choque, o estado de alerta na capital não será alterado. O risco de um atentado já era considerado “severo” desde 2014. O próximo passo seria decretar um “risco iminente”, mas a medida foi descartada por um comitê de emergência reunido na noite de quarta-feira. May — numa tentativa de demonstrar que o Reino Unido não se dobrará à ameaça do terrorismo — anunciou que o centro do poder britânico manterá sua rotina, enquanto as investigações sobre a autoria do ataque, definido pela premier como um ato “doente e depravado”, continuam. Cerca de 40 pessoas ficaram feridas e pelo menos duas delas estão em estado grave, segundo o King’s College Hospital, para onde as vítimas foram levadas.
— O local não foi acidental. Os terroristas escolheram atacar o coração de nossa capital, onde pessoas de todas as nacionalidades, religiões e culturas se reúnem para celebrar os valores da democracia e da liberdade de expressão. Essas ruas de Westminster estão impregnadas por um espírito de liberdade que ecoa em alguns dos cantos mais distantes do globo — disse a premier, sem confirmar se o ataque foi comandado por jihadistas islâmicos. — E os valores que nosso Parlamento representa... democracia, liberdade, direitos humanos, o Estado de direito... comandam a admiração e o respeito dos povos livres. E por isso foi um alvo dos que rejeitam esses valores.
Depois de um dia de pavor, com informações desencontradas, pânico nas ruas e imagens dolorosas registradas numa das áreas mais visitadas da cidade, as autoridades indicaram que o ataque a Westminster teria sido realizado por um único homem, morto por agentes de segurança. Sua identidade não havia sido confirmada até a noite de quarta-feira. Entre os mortos está o policial Keith Palmer, de 48 anos, esfaqueado pelo terrorista.
A dramática sequência de acontecimentos começou às 14h40m (hora local), com o agressor atirando um carro sobre pedestres que atravessavam a movimentada Ponte de Westminster, lembrando os ataques ocorridos em Nice, em julho de 2016, e Berlim, em dezembro passado. Depois de bater com o carro a poucos metros da entrada principal do Parlamento, o motorista abandonou o veículo e, armado com duas facas, tentou atravessar os portões — os mesmos por onde passam, diariamente, os congressistas britânicos. Ele esfaqueou o policial e em seguida foi baleado e morto pela segurança.
Entre as vítimas atropeladas estão três policiais que voltavam de uma cerimônia de condecoração e estudantes franceses que participavam de uma excursão escolar. As cenas de feridos espalhados pela ponte com o Big Ben ao fundo, enquanto multidões corriam em desespero, ficarão marcadas na História de Londres. Foi o maior ataque terrorista na cidade desde 2005, quando suicidas mataram 52 pessoas numa série de explosões no sistema de transportes.
A reação policial foi rápida e considerada eficiente. Logo depois do incidente, a polícia já classificava o ataque como ato terrorista. A primeira-ministra, que estava no Parlamento, foi retirada às pressas e levada para Downing Street, endereço da residência oficial. A região de Westminster, onde ficam vários prédios oficiais, como ministérios e a sede da Scotland Yard, foi bloqueada. Os parlamentares e funcionários só puderam deixar a área durante a noite. As ruas foram interditadas entre as regiões de Vauxhall e Embankment, deixando o centro de Londres isolado e mergulhado num silêncio que só era cortado pela sirene de ambulâncias e carros policiais. Dois dos principais pontos turísticos da capital, a Abadia de Westminster e a London Eye, uma roda-gigante panorâmica, também foram fechados. Os visitantes ficaram presos ali, enquanto não havia confirmação de que a situação estava controlada. O metrô parou de circular pela estação de Westminster.
— Passamos quatro horas trancados, numa mistura de espanto e incompreensão. Todos os dias ouvimos sobre o risco de ataques e continuamos a levar nossas vidas normalmente, mas hoje tudo se tornou real — disse o deputado Adrian Bailey. — Precisamos entender que lições tirar disso tudo, mas não podemos viver isolados e afastados do público.
O prefeito de Londres, Sadiq Khan, também reagiu no mesmo tom. Em pronunciamento de vídeo postado no Twitter, ele afirmou que os londrinos “jamais serão intimidados pelo terror”: “Meu coração está com os que perderam pessoas amadas e com todos os que foram afetados. Quero tranquilizar os londrinos e os nossos visitantes. Nossa cidade continua sendo uma das mais seguras do planeta. Londres é a maior cidade do mundo e estamos unidos contra aqueles que buscam nos prejudicar e destruir nosso modo de vida.”
O ataque ocorreu no primeiro aniversário dos atentados em Bruxelas, quando 32 pessoas foram mortas em três diferentes pontos da capital belga. A polícia não confirmou se os dois episódios estariam relacionados. Há diferenças evidentes entre a tragédia belga — uma ação terrorista coordenada e assumida pelo Estado Islâmico (EI) — e o ataque de quarta-feira, que a princípio teria sido realizado por um agressor solitário. E repetiu os padrões dos ataques de Nice, onde um terrorista atropelou e matou 84 pessoas com um caminhão em julho passado, e Berlim, onde 12 pedestres foram mortos num mercado de rua em dezembro.
O reforço do policiamento foi imediato, e deve continuar nos próximos dias.
— A polícia nas ruas traz tranquilidade. Temos que continuar a viver normalmente. É assim que tem sido sempre — disse o italiano Pietro Cecchini, funcionário de um café na Avenida Whitehall, uma das principais vias de acesso a Westminster.

