RIO — ‘Aqui, o futebol brasileiro é embaixador”. É com palavras determinadas e voz suave que a major Fernanda Santos descreve a nova vida que, há sete meses, adotou ao se juntar à Missão das Nações Unidas no Sudão do Sul (Minuss). Num país profundamente traumatizado — sobrevivendo na corda bamba entre a pobreza e a violência deixadas por duas décadas de conflito armado e, depois, uma guerra civil (2013-2015) —, o principal trabalho da brasileira é lapidar os laços de confiança entre os Capacetes Azuis e os 38 mil moradores de zonas especiais de proteção na capital, Juba. Testemunha todos os dias o impacto positivo de 260 policiais femininas, sobretudo, para as mulheres deslocadas internamente.
Com 26 anos na Polícia Militar do estado de São Paulo, o trabalho de Fernanda hoje é muito diferente da rotina no Brasil. Desarmada, oferece aconselhamento a outros policiais e cursos de sensibilização à comunidade, junto a organizações como Cruz Vermelha e Médicos Sem Fronteiras. Cerca de 17% da população, os deslocados — 213 mil nas áreas da ONU pelo país — vivem na esperança de, um dia, a segurança retornar ao lado de fora e voltar para casa.
Com o tempo, Fernanda estreitou os laços com os sul-sudaneses das áreas resguardadas pela missão da ONU, que conta com duas mulheres e 11 homens brasileiros. Lá deparou-se com um novo potencial do trabalho: combater a violência de gênero, problema sistemático no Sudão do Sul, com um ombro amigo às suas vítimas.
— Mesmo no Brasil, as mulheres se sentem mais confiantes em dividir uma agressão com outra mulher. Isso acontece especialmente numa sociedade muito mais rígida, como o Sudão do Sul. Aqui, a presença de policiais mulheres facilita as notificações dos crimes e, sem isso, não podemos preveni-los nem coibi-los. A presença feminina traz um fator de familiaridade para este grupo de vulneráveis — conta Fernanda.
Num cenário dramático também há espaço para a diversão. A Minuss organizou um torneio de futebol com uma novidade: mulheres civis e agentes de segurança no campo. Tudo pela inclusão feminina. Aos risos, Fernanda explica por que preferiu ficar na torcida:
— Já tenho 43 anos e, na minha época, as meninas não jogavam futebol. Aqui, todos amam brasileiros: veem a bandeira na camisa e abrem o sorriso de orelha a orelha. Esperam que eu seja ótima no futebol... imagina se eu passo vergonha?!
E a ambição das mulheres que se aventuram em missões de paz não para por aí. Elogiando a ONU pela preocupação com o equilíbrio de gênero, Fernanda foi eleita vice-presidente do comitê responsável por uma rede para fortalecer os vínculos entre as policiais e seus papéis no trabalho. Empolgada, ela não quer voltar ao Brasil tão cedo: tentará ficar mais um ano após o fim da missão, previsto para março.
— Queremos trabalhar com a autoestima, porque muitas mulheres procuram este trabalho, mas poucas aspiram a posições de liderança. Como vamos levar a mensagem de empoderamento lá para fora sem trabalhá-la aqui dentro?
O primeiro resgate do carioca Gabriel Nocito, 29 anos, no Mediterrâneo foi sem dúvida o mais chocante de todos dos quais ele participou durante um mês que passou por lá, em março deste ano: por mais que soubesse o que esperar, ver com seus próprios olhos a situação dos imigrantes tentando chegar à Europa foi muito impactante:
—Eles chegavam e desabavam. Desmaiavam de cansaço no deque do navio.
No começo deste ano, Nocito deixou um emprego formal como engenheiro de produção para atuar como coordenador de logística a bordo do navio Prudence, junto com outras 30 pessoas, entre tripulação e equipe da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF). Eles saíam por volta das 4h de um porto da Sicília, na Itália, e viajavam 30 horas até perto da Líbia, de onde vêm grande parte dos migrantes que tentam chegar ao continente europeu, fugindo da guerra civil que assola o país ou de nações da África Subsaariana, como Costa do Marfim, Eritreia e Sudão do Sul.
— Muitas vezes avistávamos barcos de borracha que não eram encontrados pelo radar. Estavam à deriva, em péssimas condições, com capacidade para 50 pessoas e com até 200 a bordo, sem colete ou alguém que tivesse conhecimento de navegação. Era quase um milagre chegar até ali — contou, lembrando que o trabalho é realizado em coordenação com o Centro de Busca e Salvamento Marítimo (MRCC) italiano, que acompanha as operações.
O navio, apelidado carinhosamente de “hospitêiner”, era equipado com macas, banheiros, zonas refrigeradas adaptadas para salvamento e um deck elevado. O primeiro a receber os imigrantes era um mediador cultural — que falava árabe e outras línguas. Outras ONGs também ajudavam, distribuindo coletes salva-vidas e kits para a viagem até a Itália, e funcionários faziam uma triagem médica para saber quem mais precisava de ajuda.
A cada viagem eram resgatados cerca de 500 migrantes — 80% homens, e outros 20% menores desacompanhados e mulheres, algumas grávidas. O Prudence tinha capacidade para até 800 pessoas, mas, em alguns casos, chegou a levar 1.500. Uma história que marcou Nocito foi a de um pai com dois filhos pequenos, entre 3 e 7 anos, que havia se perdido da mulher.
— Uma das crianças sofreu hipotermia e precisou ser levada a um hospital, o que significava que teria de ser retirada de helicóptero. Como a equipe de Malta era a mais próxima, as chances de deportação eram maiores. No fim, percebemos que para salvar o filho a probabilidade de realizarem o sonho de chegar à Europa era muito pequena.
Muitos passavam por traumas durante a viagem longuíssima e perigosa.
— Vindos da Nigéria, cruzavam fronteiras, eram escravizados, violentados ou se perdiam de amigos e familiares.
Mas nada se compara à sensação de achar apenas corpos.
— Frequentemente encontrávamos só cadáveres em botes mais baratos. Nosso trabalho era levar esses corpos de maneira digna para a costa italiana. Tínhamos um necrotério a bordo.

