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Oposição teme fraude em pleito na Venezuela

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BUENOS AIRES — Depois de uma campanha eleitoral-relâmpago — apenas um mês — e conturbada por agressões físicas, perseguição, modificação e violação de regras por parte do Conselho Nacional Eleitoral (CNE), os venezuelanos irão hoje às urnas para eleger 23 governadores em meio a um clima de forte preocupação pela eventual manipulação de resultados. Há menos de três meses, a eleição dos membros da polêmica Assembleia Nacional Constituinte (ANC) terminou em fraude, confirmado até mesmo pela empresa internacional Smarmatic, na época contratada pelo CNE para realizar suporte técnico, e o temor entre eleitores e dirigentes políticos é grande. Mas o medo, explicaram ao GLOBO analistas e especialistas em estratégias eleitorais, é amplamente superado pela clareza sobre a importância tática de buscar um resultado que mostre ao mundo o grau de rejeição ao governo de Nicolás Maduro.

Não participar do pleito regional nunca foi uma opção para a grande maioria de integrantes da Mesa de Unidade Democrática (MUD). Mesmo cientes dos obstáculos colocados pelo CNE, os opositores insistiram em que a participação é essencial para avançar em sua luta por uma solução democrática para a crise. As pesquisas nas últimas semanas mostraram que quanto maior for a abstenção, maiores serão as chances do chavismo de obter melhores resultados.

De acordo com a Venebarómetro, cerca de 70,3% dos venezuelanos acreditam que será cometido algum tipo de fraude. A mesma pesquisa mostrou que 90,2% disseram que a situação do país é negativa, e 51,7% manifestaram intenção de votar pelos candidatos da MUD.

— Estas serão as eleições mais irregulares da nossa história. O CNE mudou regras desde o começo, tentando prejudicar a oposição — lamentou Nélida Sánchez, coordenadora nacional de controle eleitoral da ONG Súmate.

Nélida trabalhou durante 27 anos no órgão eleitoral do país e disse nunca ter visto uma situação como a atual:

— Mudaram dezenas de locais de votação, as informações para os eleitores são confusas e impediram a substituição de candidatos, como prevê nossa lei eleitoral. Está claro que o CNE é um escritório a serviço do governo, mas, também, que temos de votar para lutar por nossos direitos — enfatizou Nélida.

Desta vez, não haverá observação eleitoral de OEA, União de Nações Sul-americanas, Mercosul ou União Europeia. Os únicos convidados pelo Palácio de Miraflores foram enviados do Conselho de Especialistas Eleitorais das Américas, integrado por ex-funcionários de órgãos eleitorais da região.

— Não é um grupo plural, parecem mais amigos do governo — lamentou Luis Emilio Rondón, único entre os cinco reitores do CNE que não é chavista.

Ele, como Nélida, acusa o governo Maduro de estar realizando “as eleições mais irregulares de nossa história”.

— E o pior de tudo isso é que cada uma das manipulações do CNE foi respaldada pelo Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) — apontou Rondón.

Ontem, a MUD denunciou em comunicado a chegada ao país de “especialistas nicaraguenses em técnicas de fraude”. Hoje, a coalizão colocará nas ruas do país 363 mil voluntários, que terão como missão ajudar os eleitores e observar os funcionários do CNE.

— O que o CNE fez nesta eleição foi mais um golpe à democracia — acusou Gerardo Blyde, prefeito do município de Baruta, na Grande Caracas, e um dos coordenadores da campanha opositora.

Uma das principais preocupações da MUD é que muitos eleitores não encontrem seus locais de votação. A confusão poderia aumentar a abstenção, o que, segundo analistas, favorecerá o chavismo. Hoje, a oposição governa só três dos 23 estados do país. Com uma participação entre 50% e 60%, a MUD acredita ter chances em 12 a 15 estados.

— Esta eleição é um passo tático essencial. O resultado é importante, mas o mais importante é fortalecer-se na luta contra o governo Maduro e chegar com fôlego às presidenciais de 2018 — opinou o analista Oswaldo Ramírez Colina.

Uma vitória contundente dos candidatos da MUD (obter ao menos 12 governos estaduais), disse Ramírez Colina, “empoderaria ainda mais a oposição perante a comunidade internacional”.

— A MUD ganharia impulso para exigir mais sanções ao governo e uma observação internacional de peso nas presidenciais de 2018, entre outras demandas — disse o analista.

Já o Palácio de Miraflores tem outros objetivos. Um revés da oposição nas urnas poderia aprofundar o desânimo entre seguidores da MUD e manter as ruas das principais cidades vazias. Após cinco meses de protestos contra o governo, centenas de detidos e ao menos 140 mortos, os opositores suspenderam as manifestações e concentraram esforços na campanha. Uma derrota nas regionais traria mais frustração aos venezuelanos que rejeitam Maduro e dificultaria futuras ações da MUD.

— A vitória do chavismo também poderia reduzir a pressão externa, que ficaria concentrada nos grandes críticos de Maduro, entre eles os Estados Unidos — explicou o analista.

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