Crimes cometidos pela extrema direita batem recorde na Alemanha

Por Folha de São Paulo / Portal do Holanda

04/05/2021 11h34 — em Mundo

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A Alemanha registrou em 2020 um recorde nos crimes cometidos por apoiadores da extrema direita, alcançando o nível mais alto desde 2001, quando as autoridades começaram a coletar e classificar dados sobre crimes com motivação política.

De acordo com os números divulgados nesta terça-feira (4) pelo ministro do Interior alemão, Horst Seehofer, os 23.064 crimes da extrema direita no ano passado representam um crescimento de 5,7% em relação ao que foi registrado em 2019.

Além disso, a extrema direita foi responsável por 52,8% do total de crimes de natureza política ou ideológica, que vão desde incitação ao ódio racial até saudações nazistas.

"Isso mostra o que venho dizendo desde o início da minha gestão, que o extremismo de direita é a maior ameaça à segurança em nosso país, já que a maioria dos crimes racistas são cometidos por pessoas desse espectro", disse Seehofer.

Segundo o ministro, apesar de os crimes com motivação política representarem apenas cerca de 1% do total de crimes cometidos na Alemanha, os números divulgados nesta terça são "muito preocupantes" porque representam a consolidação de "uma tendência clara para a brutalidade" no país.

Dentro dessa categoria, foram registrados ainda 3.365 crimes violentos, incluindo 11 assassinatos e 13 tentativas de homicídio. O número representa um aumento de 18,8% em relação ao ano anterior.

Entram nessas estatísticas, segundo o ministro, os nove mortos durante um ataque a tiros em fevereiro de 2020 contra dois bares frequentados por imigrantes em Hanau. O autor dos disparos, que cometeu suicídio após o crime, era atirador esportivo e havia comprado armas de forma legal. Ele mantinha um site no qual publicou uma espécie de manifesto que misturava ideias racistas e teorias da conspiração.

Entre os incidentes classificados como "crimes de expressão", que incluem discursos de ódio e propaganda neonazista, por exemplo, 65% foram perpetrados por extremistas de direita, segundo o levantamento. O país também registrou aumento de 15,7% no número de ocorrências envolvendo discurso de ódio contra os judeus.

"O ódio antissemita é um componente central da ideologia extremista de direita. Este desenvolvimento na Alemanha não é apenas preocupante, mas, no contexto de nossa história, profundamente vergonhoso", disse Seehofer.

A Alemanha intensificou os esforços para combater esses grupos, especialmente depois que, em outubro de 2019, um homem armado matou duas pessoas em frente a uma sinagoga na cidade de Halle, no leste do país. O crime, transmitido ao vivo na internet, ocorreu no dia do Yom Kippur, a data mais sagrada para o judaísmo.

Nesta terça, promotores alemães anunciaram a prisão de um homem de 53 anos acusado de enviar cartas com ameaças e discursos de ódio durante três anos a políticos de esquerda, bem como a um advogado de ascendência turca que representava vítimas de crimes cometidos pela extrema direita.

Segundo a polícia, o homem assinava suas cartas com a sigla "NSU 2.0", em referência ao grupo neonazista National Socialist Underground, responsável pelo assassinato de ao menos dez pessoas entre 2000 e 2007.

O ministro Seehofer também divulgou estatísticas sobre os cerca de 3.500 crimes -dos quais 500 foram considerados violentos- associados ao movimento Querdenker (algo como "pensadores laterais").

O grupo, composto em sua maioria por extremistas de direita e coletivos antivacina, é conhecido por organizar manifestações contra as medidas de restrição ao comércio e à mobilidade durante a pandemia de coronavírus. Nesse contexto, segundo os dados, houve ao menos 1.260 crimes contra jornalistas.

A oposição ao Querdenker na forma de manifestações simultâneas e antagônicas, de acordo com o ministro, é um dos principais fatores que levaram também a um aumento de 45% no uso da violência em crimes cometidos pela extrema esquerda. No total, o número de crimes cometidos por esse grupo subiu 11%.

A segurança pública se tornou uma questão política fundamental no debate político antes das eleições nacionais previstas para setembro, que definirão quem sucederá a primeira-ministra Angela Merkel.

Em março, o Escritório Federal de Proteção à Constituição (BfV, na sigla em alemão) colocou o partido de direita radical Alternativa para a Alemanha (AfD), principal agremiação de oposição, sob vigilância. A decisão foi tomada depois de dois anos de investigação sobre a atividade xenófoba do partido. Advogados e especialistas em extremismo analisaram discursos de políticos da AfD e publicações na internet e concluíram que eles são suspeitos de extremismo e podem significar risco à democracia alemã.

Serviços de inteligência alemães temem que ativistas da extrema direita estejam tentando explorar a frustração pública com as restrições impostas para impedir a disseminação do coronavírus como forma de incitar a violência contra as instituições do Estado.

Organizações da sociedade civil têm feito alertas sobre os perigos representados pela onda de ressurgimento da extrema direita em um país assombrado por seu passado nazista. A avaliação é de que a ameaça foi subestimada pelas autoridades alemãs, que concentraram esforços no combate ao extremismo islâmico e aos jihadistas.


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