barcelona Aos gritos de “não temos medo!”, catalães e turistas lotaram a Praça Catalunha na manhã de sexta-feira, em um ato que homenageou as vítimas do atentado terrorista em Barcelona. Muito antes do meio-dia, horário marcado para o minuto de silêncio, a praça, ponto turístico no centro da cidade, já estava cheia. Em meio à multidão, logo atrás do rei Felipe VI e do presidente do governo espanhol, Mariano Rajoy, na homenagem, um cartaz dizia: “Estou aqui para cantar pelas vozes que tiveram a ousadia de calar”. Emocionados, os cem mil presentes, segundo contagem divulgada pelo governo, não cumpriram apenas um minuto de silêncio, mas quase dez, alternando entre palmas e silêncios até que as autoridades foram embora.
— Não vamos deixar de sair às ruas e tampouco mudar a nossa rotina por atos covardes cometidos por gente que não tem amor nem mesmo por si próprio — disse Marta Ramirez, 58, catalã que chegara por volta das 10h ao local.
Após a dispersão, nada de voltar para casa. A maioria seguiu em direção às Ramblas, percorrendo o mesmo caminho que a van que atropelou centenas de pessoas ao longo de 530 metros da principal via turística da cidade na quinta-feira. Já na entrada da avenida, dezenas de pessoas se aglomeravam ao redor de um memorial aos mortos com bandeiras da Espanha e de outros países da União Europeia, velas, cartazes e flores.
Alguns chorosos, outros pensativos e todos consternados com a sensação de que poderia ter sido “qualquer um de nós”, como lembrou Ricardo Martín, colombiano de 24 anos que mora na cidade há cinco meses. Ele parou para acender as velas que se apagavam com o vento enquanto desabafava:
— Não fosse um compromisso de última hora que surgiu na quinta-feira à tarde, eu estaria passando por aqui para ir a uma loja de esportes que fica no meio das Ramblas.
Diversos outros memoriais foram montados por toda a extensão da via de pedestres, reaberta ainda na noite de quinta-feira. Uma bandeira do Brasil destacava a solidariedade dos brasileiros que, apesar de constar entre os principais turistas na cidade, afortunadamente, não figuram entre as 35 nacionalidades de vítimas graves no ataque.
A grande maioria das bancas de comércio na área interna e na área de pedestres das Ramblas manteve suas portas fechadas. As poucas que abriram viraram fonte de curiosidade da imprensa e também de passantes que queriam escutar da boca de sobreviventes os detalhes do ocorrido.
— Tudo em Barcelona vira turismo, tinha gente até fazendo selfie com as Ramblas atrás e sorrindo. Não entendo estes tempos que vivemos, em que o online se tornou mais importante que o real — reclamou Juan Andrade, 32 anos.
Jordi Peña Rosa foi um dos comerciantes que optaram por abrir as portas de sua banca de suvenires. Por sorte, ele não estava no local, que fica a apenas cinco metros de onde a van, enfim, parou. Seus funcionários, que trabalhavam no momento do ocorrido, não sofreram ferimentos:
— Apenas as mercadorias que estavam do lado de fora foram arrastadas pelo carro.
Um comerciante argentino da tenda ao lado, entretanto, não teve a mesma sorte. Atingido de raspão pelo retrovisor e atirado de súbito a alguns metros de distância, o rapaz foi levado a um dos hospitais para onde os feridos foram encaminhados, e liberado em seguida.
Num dia de emoções à flor da pele, uma manifestação de pouco mais de 20 pessoas tentou cruzar a avenida com palavras de ordem contra muçulmanos e turistas. “Espanha é cristã e não muçulmana”, gritavam integrantes do grupo de extrema-direita Falange. Transeuntes se opuseram ao ato pouco antes de um grupo especial da polícia, equivalente à tropa de choque no Brasil, intervir, forçando os manifestantes a deixarem a área.
— É inacreditável que num dia como hoje existam pessoas que, em vez de dar conforto, de se unir, queiram criar mais tensão — afirmou, em tom de indignação, o brasileiro Jordan Silva, 33 anos, que vive em Barcelona há quatro.
Alvos dos protestos e novamente colocados no centro das atenções quando o assunto é terrorismo, cidadãos da comunidade muçulmana de Barcelona marcaram para hoje, às 19h (14h no Brasil), um ato em solidariedade aos mortos e feridos no ataque.
Direto de Uberlândia, Victor Hugo, 29, chegou à cidade poucas horas após o ataque. Em sua primeira visita, lamentou o clima de insegurança e o semblante fechado da população desolada. Decidiu ainda no aeroporto mudar os planos, substituindo as principais atrações turísticas por passeios em bairros mais afastados do centro, e incluiu gastos com táxi ao roteiro que antes cumpriria chegando de metrô.
— Tenho muito medo de andar de transporte público neste momento, as estações de trem são preferência dos terroristas.
Já liberadas, todas as estações de trem e ônibus funcionaram normalmente na sexta-feira, que parecia um dia normal, com passageiros de pé, filas nas escadas rolantes e alguma demora para conseguir acessar as catracas de saída. Ainda que traumatizados, moradores e turistas tentam seguir normalmente sua rotina.
— A reação que eles esperam é que o medo nos impeça de desfrutar da cidade. Mas nós vamos tomar sorvete nas Ramblas, ir à praia no fim do dia e tomar nossos drinques nos bares de áreas turísticas ou não — afirmou a andaluz Carmen Velasco, 37 anos.

