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Artigo: Resta alguma dúvida sobre quem ganhou?

Na física, o magnetismo é um fenômeno natural pelo qual certos objetos atraem outros. Na política, onde tudo é mais complexo, é o que acontece a Donald Trump com Vladimir Putin. O presidente dos EUA é fascinado pelo líder russo. Ele o vê como “valor seguro”, colocou-o à frente do “fraco” Barack Obama e até defendeu-o de acusações de assassinar adversários. “Você acha que o nosso país é tão inocente?”, chegou a responder numa entrevista na TV.

Essa atração, quase elétrica, fez com que realizasse uma reunião que havia sido radicalmente desencorajada por seus assessores. Não é que faltasse uma agenda comum de peso. Síria, Coreia do Norte, Ucrânia ou mesmo as sanções contra Moscou são questões que merecem muito mais do que uma reunião. Mas, como alertaram os opositores democratas e diversos republicanos, existe um ponto anterior que Trump tem conscientemente deixado sem resolver e que envenena tudo: a trama russa.

A recusa do presidente em reconhecer abertamente que Moscou foi responsável por uma campanha cibernética desencadeada contra Hillary Clinton afeta não só sua credibilidade, mas a própria segurança nacional. Trump, com seu malabarismo retórico, se esforça para minimizar a intervenção de Putin, sempre dizendo que “poderia ser outro” responsável. Ou, como fez na reunião, limita-se a expressar formalmente sua preocupação. Esta reticência esbarra nas conclusões de FBI, CIA e NSA. Todos sentenciaram num relatório conjunto que Putin “ordenou a campanha contra as eleições presidenciais para minar a fé pública no processo democrático” e evitar uma possível Presidência de Hillary.

Mais claro do que isso, impossível. Putin interferiu. E o beneficiário do ataque, apesar de vitorioso por outras razões, se recusa a reconhecer. Pelo contrário: desde que chegou ao poder, busca maneiras de dar uma mão ao necromante russo.

Para um presidente sob investigação, é uma aposta de alto risco. Putin não tem nada a perder, e Trump tem muito. Para o russo, o acordo de cessar-fogo no Sudoeste da Síria representa um enorme sucesso diplomático. Depois de ordenar a “maior operação até agora conhecida para interferir na vida política americana”, ele aperta a mão de seu presidente, senta-se com ele e, como bons amigos, corrigem os problemas do mundo. Putin mostra assim que foi acertada sua estratégia de assédio a Hillary, apesar do escândalo, das sanções e da investigação por um promotor especial.

Trump, no entanto, está exposto. Não só qualquer falha na Síria jogará contra ele, mas a suspeita de conivência aumenta. Abraçou o despótico presidente russo e, sem censura, naturalizou uma relação assimétrica. O ímã venceu.

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