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Em Roma, antipolítica enfrenta os percalços de estar no poder

RIO E ROMA - Ela garantiu que reergueria em pouco tempo uma das principais cidades do mundo, combalida pela corrupção nos serviços públicos, o lixo que vinha tomando as ruas e os sucessivos escândalos políticos que culminaram na derrubada do governo anterior. Para isso, Virginia Raggi e o populista Movimento Cinco Estrelas (M5S) pregaram o lema “Roma renasce”. Eleita com ampla maioria eleitoral em junho de 2016, a jovem integrante da legenda antissistema e antipolíticos — que hoje é uma das maiores da Itália — surgiu como um sopro frente a anos de crises de gestão na capital. Mas, após um ano de governo, enfrenta uma queda livre e um choque de realidade com o poder: não conseguiu regularizar o descarte do lixo, sofre com queixas de todos os setores por suas ações e inações, passou a ser rejeitada pela grande maioria dos romanos e pode ver o fim de seu mandato com somente um ano no Monte Capitolino.

A advogada de 38 anos, primeira mulher a comandar a capital, teve ascensão meteórica desde que se tornou vereadora, em 2013, focando sua atuação em políticas escolares, ambientais e de trabalho. Mas, no cargo, logo se deparou com a dificuldade de modernizar a gestão urbana e corrigir erros dos governos anteriores, como prometera fazer rapidamente. De quebra, encadeou políticas simbólicas, pouco eficazes ou só controversas, como derrubar a candidatura romana aos Jogos Olímpicos de 2024; proibir turistas de se sentarem em fontes; barrar ambulantes; defender o veto à entrada de refugiados; desmontar acampamentos de ciganos; e até acabar com falsos gladiadores no entorno de atrações como o Coliseu.

— Não se veem melhorias significativas na gestão da cidade — sintetiza ao GLOBO o filósofo Michele Prospero, professor de ciências sociais e políticas na Universidade La Sapienza, uma das principais do país e da Europa. — O peso da herança do passado era enorme, mas em um ano ocorreram seguidos episódios de incompetência, inexperiência e relações escusas.

Nem tudo é responsabilidade de Raggi. Investimentos estão comprometidos por dívidas multimilionárias e elevados salários públicos, legados de gestões como a de Ignazio Marino — forçado a deixar o cargo no fim de 2015 após ser abandonado por seu Partido Democrático (centro-esquerda) em meio a escândalos pessoais e má gestão. Uma das heranças do antecessor foi o fechamento de aterros sanitários. Raggi não só não conseguiu reverter a situação como viu, em um só ano, quatro trocas na cúpula da empresa municipal responsável. Roma gasta € 170 milhões por ano só com resíduos, exportando 80% do lixo que produz.

Se por um lado a prefeita ganhou pontos com gestos como endurecer multas a quem joga lixo nas ruas, foi criticada por suas propostas mais duras, como limitar a aglomeração no entorno da Fontana di Trevi, limitar o contato com as fontes da cidade (integradas à vida cotidiana da capital) e coibir vendedores ambulantes. Enquanto isso, a aguardada conclusão rápida de uma terceira linha de metrô, prometida por Raggi, continuou um sonho distante. Os engarrafamentos ao redor do centro histórico persistem. Uma ambiciosa proposta de teleférico para aliviar o trânsito nas periferias foi deixada de lado. Frente à vinda em massa de refugiados que chamava de irmãos, começou a defender publicamente que não possam mais viver na cidade.

— Os problemas em Roma são incômodos e vêm de longe — ressalta Giovanni Caudo, professor da universidade Roma Tre e ex-secretário municipal de Transformação Urbana que abandonou o governo Marino. — Mas faltam ações na economia, no comércio e no turismo. Todos os velhos problemas de Roma permanecem visíveis, como os resíduos e os transportes. E um dos slogans de campanha, que era cortar os custos da política e dar maior eficiência aos serviços públicos, é sempre alvo de contradição.

Raggi sofreu por meses para formar sua equipe e viu vários colaboradores se demitirem em um ano. A maior parte de seus atos executivos é de nomeações de pessoal. A prefeita e o M5S prometeram que se algum membro da prefeitura fosse investigado por qualquer tipo de crime, seria imediatamente afastado. Mas crises políticas envolvendo membros do Gabinete mudaram isso, fazendo o partido adotar as mesmas táticas de defesa dos políticos tradicionais, a quem tanto criticavam.

— A falta de transparência e de verdade é o grande fracasso do M5S (na capital), deixando de representar uma ruptura. Ao contrário, seu comportamento se alinha aos piores comportamentos do sistema partidário. Esperava-se mais — avalia Caudo. — É uma continuidade das práticas romanas mais antigas.

E como se não bastassem as dificuldades de gestão, a própria Raggi é agora alvo num escândalo de corrupção que pôs na prisão seu então chefe de Gabinete, Raffaele Marra, figura onipresente na política romana desde o governo de Gianni Alemanno, próximo ao ex-premier Silvio Berlusconi (de direita). Apesar de o caso ter ocorrido em 2013, áudios obtidos pela promotoria deram indícios de que o então braço-direito da prefeita acertou com ela a nomeação do irmão, Renato Marra, para chefiar a secretaria de Turismo. Ao prestar depoimento em janeiro, negou ter articulado a indicação, o que a fez ser investigada não só por abuso de poder, mas ainda por falso testemunho.

— O caso Marra revela a dificuldade de movimentos justicialistas em ficar longe de acusações de conluio — diz Prospero, citando a derrocada do movimento Itália de Valores, do célebre procurador Antonio di Pietro, da operação Mãos Limpas.

Apesar do baque, Raggi garante que segue em frente. Ganhou voto de confiança do líder do M5S, o famoso comediante Beppe Grillo, que descartou seu afastamento. Ela deu a seu primeiro ano uma nota 7,5 — uma avaliação positiva para quem teve a gestão rejeitada por 70% dos romanos, segundo pesquisa do diário “La Repubblica”.

— Passamos o primeiro ano consertando bagunças administrativas — defendeu-se a prefeita. — Para a mudança prometida, precisa-se de tempo e paciência.

Mas uma parcela dos partidários do movimento já defende que seu vice, Luca Bergamo, seja empossado. Antes de se demitir, o então secretário de Urbanismo da cidade, Paolo Berdini, foi flagrado chamando-a de despreparada, como fizeram outros aliados.

— Como é que ela consegue ser prefeita? Está fazendo a princesa. Enganaram-na ao dizerem que ela seria capaz — questionou em novembro o próprio Marra, num áudio recentemente vazado.

A dificuldade de fazer valer o discurso contra a velha política evidenciou ainda dificuldades eleitorais. Em recentes pleitos municipais, o M5S, que tanto criticava os que estavam no poder, passou longe de conquistar as principais cidades. Sinal de que é mais complexo fazer do que falar.

— Depois de cinco anos de experiência no Parlamento, com altos e baixos na capacidade de fazer oposição, será árduo se apresentar como o novo que pune a velha classe política — prevê Prospero.

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