Início Mundo Artigo: O erro definitivo de Trump na política externa
Mundo

Artigo: O erro definitivo de Trump na política externa

Envie
Envie

O presidente Trump está pronto para colocar em ação sua política para o Irã. O primeiro passo será não certificar o acordo nuclear, o que preparará o terreno para uma ampla campanha de pressão militar e econômica com o objetivo de enfraquecer e restringir o país. Essa aposta arriscada minará a credibilidade dos EUA e a capacidade da comunidade internacional para controlar novos desenvolvimentos nucleares no Irã, na Coreia do Norte e em outros locais durante os próximos anos. As consequências para os interesse nacionais dos EUA, no entanto, vão muito além disso.

Por que fazer isso? Parece claro que Trump desdenha do acordo nuclear com o Irã, ou pelo menos de parte dele, por se tratar de um dos principais feitos do governo Obama — um legado que talvez só perca em importância simbólica para o Obamacare. Isso explica por que o presidente descreveu o acordo como “uma vergonha” e “o pior acordo já feito”, uma hipérbole que só dificultou sua tarefa de informar o Congresso regularmente que o Irã na verdade está cumprindo sua parte.

O presidente prefere lavar as mãos e deixar que o Congresso decida o futuro do acordo. Recusar-se a confirmar que o Irã está seguindo o combinado enquanto apresenta denúncias muito mais amplas contra o país funciona, na prática, como um convite para que o Congresso imponha novas sanções. Mas se outros signatários do acordo se posicionarem ao lado do Irã, tudo o que a “não-certificação” conseguirá será a abertura de um abismo entre os Estados Unidos e seus aliados europeus, a Rússia e a China. Por outro lado, se conseguir seduzir seus aliados, o acordo morrerá — e todos poderão voltar a se preocupar com uma possível guerra contra um Irã nuclear.

Os EUA estão certos em se preocupar com o programa de mísseis do Irã, e também com a amplitude da influência regional do país e a maneira como Teerã reafirma essa influência. Mas o caminho escolhido por Trump só afundará ainda mais um já volátil Oriente Médio, gerando uma turbulência cada vez maior que consumirá a atenção e os recursos de Washington.

Líderes iranianos interpretam a hostilidade de Trump ao acordo nuclear como uma prova de que negociações diplomáticas com os EUA são uma tolice — já que Washington não cumprirá qualquer acordo diplomático e interpretará qualquer disposição para buscar a diplomacia como uma fraqueza e um convite para ampliar a pressão. O comandante da Guarda Revolucionária iraniana já alertou que o Irã irá retaliar contra novas sanções, em particular sua classificação como uma organização terrorista, construindo e testando mais mísseis e classificando, em resposta, o Exército americano como uma organização terrorista, e pondo na mira bases e funcionários americanos.

O Irã não quer uma guerra contra os EUA. Mas começa a perceber que é melhor agir como a Coreia do Norte. Um Irã recalcitrante e agressivamente antiamericano mudaria dramaticamente as condições para a política americana para região.

O acordo nuclear removia a ameaça de uma guerra com o Irã. Era uma importante vitória estratégica, considerando o tamanho do Irã, sua localização e sua importância para a estabilidade de uma vasta região que se estende da Ásia Central ao Mediterrâneo. Havia outros benefícios. O acordo possibilitou que Irã e EUA cooperassem no combate aos avanços do Estado Islâmico no Iraque. A estabilidade do governo central iraquiano e sua capacidade para atingir um acordo político com a população sunita do país e a agitada região autônoma curda ficam em risco com a nova política de Trump. É difícil imaginar como a crise gerada pelo referendo curdo de independência pode ser amenizada sem Teerã. É igualmente difícil imaginar um fim próximo para as guerras na Síria e no Afeganistão se esses países se tornarem palcos para um conflito prolongado entre Irã e EUA.

No Irã, o acordo nuclear tem sido a carta na manga das vozes moderadas que querem reformar a economia e criar um futuro para o país baseado em melhores relações com o Ocidente. Seu sucesso na negociação do acordo criou uma demanda por mudanças no país.

Essa demanda deu ao presidente Hassan Rouhani uma vitória acachapante e um novo mandato na eleição presidencial de maio. Sua campanha se apoiou no sucesso do acordo e na promessa de abertura para o Ocidente. Em agosto, uma maioria avassaladora no Parlamento iraniano — incluindo tanto reformistas quanto conservadores — reconfirmou o ministro das Relações Exteriores, Mohammad Javad Zarif, principal negociador iraniano do acordo, no cargo. Cada vez mais, as batalhas na política iraniana passaram a ser travadas em volta da possibilidade de investir o futuro do país numa reaproximação com os Estados Unidos.

Existem aqueles nos EUA que celebrariam a derrota dos moderados iranianos: com a cúpula linha-dura no comando em Teerã seria mais fácil para que forças americanas se mobilizassem contra a República Islâmica. Mas os EUA aprenderam no Iraque que não podem trazer mudanças por meio de tanques.

O EUA estarão numa posição melhor se os próprios iranianos levarem a mudança ao país. No entanto, Washington está seguindo a mesma lógica equivocada que cimentou o caminho para a Guerra do Iraque. A política de Trump para o Irã não é apenas um ataque ao legado de Obama, mas também definirá o próprio legado do atual presidente. A História será implacável com esse fiasco estratégico.

Siga-nos no

Google News