Por Federico Maccioni e Tim Hepher
DUBAI/PARIS, 2 Mar (Reuters) - O agravamento do conflito no Oriente Médio revelou o quanto o transporte aéreo global depende de um punhado de hubs comandados por Dubai, aeroporto internacional mais movimentado do mundo, após o fechamento do espaço aéreo do Golfo se espalhar rapidamente pelas redes aéreas em todo o mundo.
Quatro décadas após a capital comercial do Golfo decidir explorar sua localização estratégica criando a Emirates com dois jatos alugados e duas rotas, Dubai encontra-se no centro de uma rede global que abrange 110 países e 454.000 voos por ano.
"O fato de termos um modelo de negócios geograficamente tão bem distribuído e bem equilibrado entre visitantes e passageiros em trânsito sugere que ele é muito robusto e continuará a sobreviver a qualquer tensão geopolítica que exista, onde quer que seja", disse à Reuters o presidente-executivo da Dubai Airports, Paul Griffiths, em uma entrevista recente.
No sábado, os ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã trouxeram essas tensões para as portas de Dubai, incluindo um ataque ao próprio aeroporto.
RECONSTRUÇÃO DA REDE
Dubai agora tem a tarefa monumental de lidar com dezenas de milhares de passageiros deslocados e reconstruir sua rede, enquanto tenta minimizar os danos aos voos de chegada, que representam metade de seu tráfego.
A maioria dos analistas afirma que, salvo uma guerra regional prolongada, os hubs do Golfo se recuperarão graças ao impulso e ao poder de suas redes. Mas o fechamento sem precedentes dos três principais hubs — Dubai, Abu Dhabi e Doha — coincide com a crescente concorrência da Turquia, da Arábia Saudita e da Índia.
"Não há dúvida de que isso é temporário. Eles já passaram por incidentes graves antes e se recuperaram muito rapidamente devido à sua importância como hubs globais", disse o consultor de viagens Paul Charles, do Reino Unido.
"Eles vão se recuperar rapidamente, mesmo que haja uma incerteza substancial no curto prazo."
Outros estão menos certos. Todo o setor se recuperou do golpe sofrido durante a pandemia da Covid-19 graças à demanda que superou a oferta. Desta vez, porém, é a demanda que está em risco.
"Os viajantes provavelmente vão considerar voos mais diretos em vez de fazer escala em Dubai ou Doha. Todo esse tráfego nos centros provavelmente será afetado", disse o consultor independente de aviação Bertrand Grabowski.
GEOGRAFIA FAVORÁVEL
A geografia e a economia, no entanto, continuam sendo fortes aliadas.
"Um terço da população mundial está a menos de quatro horas de voo e dois terços a menos de oito horas", disse Griffiths, da Dubai Airports.
"Vimos o incrível poder de agregação que um hub oferece."
Mas há ameaças ao trio do Golfo em gestação. A Turkish Airlines pode ser a maior vencedora no curto prazo por meio de seu próprio mega-hub fora da zona de conflito, disse o analista independente de aviação John Strickland.
A Arábia Saudita também está entrando na disputa, seguida pela Índia, com as companhias aéreas asiáticas conquistando passageiros.
Avanços no design de aeronaves — antes favoráveis às companhias aéreas do Golfo — também começam a prejudicá-las. A Airbus começou na semana passada a montar um segundo jato A350 de longo alcance para apoiar os planos da Qantas de voar diretamente de Sydney para Londres.
CRESCIMENTO RÁPIDO
A Emirates foi fundada no auge da guerra Irã-Iraque, em 1985. Seu rápido crescimento levou à fragmentação da Gulf Air — companhia aérea do Catar, Barein, Abu Dhabi e Omã na época —, quando primeiro o Catar e depois Abu Dhabi criaram suas próprias companhias aéreas para formar o que continua sendo um trio de hubs do Golfo competindo por passageiros.
Com a reputação de ordem de Dubai abalada pelos ataques iranianos e estilhaços antimísseis, analistas afirmam que a maior incerteza de todas paira sobre o futuro do tráfego para a própria cidade.
Também foram levantadas questões sobre o calendário da expansão, já atrasada, de um novo aeroporto gigante fora da cidade.
O tráfego com destino a Dubai "vai sem dúvida se recuperar, mas é provável que haja alguns danos duradouros", avaliou Grabowski.
Para a Emirates e sua companhia aérea irmã flydubai, isso pode envolver o uso de seu poder de mercado para fazer o sistema funcionar novamente.
"As pessoas têm memória curta e podem ser incentivadas por algumas ofertas promocionais a voltar, mas não acho que isso precisaria durar muito tempo", disse Eddy Pieniazek, da empresa de consultoria de aviação e leasing Ishka.
(Reportagem de Federico Maccioni e Tim Hepher; Reportagem adicional de Julie Zhu )

