Um conto amazônico sobre a generosidade, a memória dos antepassados e a riqueza que nasce quando ninguém come sozinho.
Dizem que, muito antes de Manaus crescer, de o asfalto cortar caminhos e de o celular roubar a atenção das conversas na varanda, existia uma pequena comunidade ribeirinha onde a floresta era professora, o rio era estrada e a palavra dos mais velhos valia mais do que qualquer documento.
Lá morava dona Raimunda, uma avó de fala mansa e olhar sabido, daquelas que conheciam o tempo pela cor do céu e sabiam quando o rio estava de bom humor só de escutar o barulho da água.
No quintal de sua casa crescia um bananal, e entre os cachos havia uma banana diferente, graúda, de presença respeitável e sabor que fazia qualquer caboclo fechar os olhos na primeira mordida: a nossa querida banana pacovã!
— Vovó, por que a senhora gosta tanto dessa banana? — perguntou Pedrinho, seu neto, enquanto observava um cacho madurinho.
Dona Raimunda sorriu, ajeitou o paneiro e respondeu:
— Meu filho, a pacovã não alimenta só a barriga. Ela alimenta a lembrança da gente. Quem cresce nesta terra sabe que tem fruto que mata a fome, mas tem fruto que também conta história.
Pedrinho coçou a cabeça. Aquela resposta era bonita, mas ele queria mesmo era saber quando poderia comer a primeira banana.
Naquela época, porém, uma grande dificuldade havia chegado à comunidade. A pesca estava fraca, algumas roças tinham produzido pouco e muitas famílias começavam a enfrentar dias difíceis. Cada casa tentava guardar o que tinha, com medo de faltar amanhã.
Foi quando dona Raimunda teve uma ideia.
Reuniu os moradores debaixo de uma grande mangueira e levou consigo um cacho de banana pacovã.
— Meus parentes, a floresta nos ensina que nada vive sozinho. A árvore precisa da terra, a terra precisa da água, e nós precisamos uns dos outros. Se cada família guardar tudo para si, talvez consiga atravessar um dia. Mas, se repartirmos o que temos, poderemos atravessar muitos dias juntos.
Alguns concordaram. Outros ficaram desconfiados.
— E se eu repartir o meu e depois faltar para meus filhos? — perguntou um homem.
A velha respondeu sem levantar a voz:
— Meu compadre, repartir não é ficar sem nada. É reconhecer que, às vezes, o pouco de uma pessoa, somado ao pouco de outra, vira muito para todos.
Naquela tarde, as famílias trouxeram o que podiam: um pouco de farinha, alguns peixes, macaxeira, frutas e lenha para o fogo. Dona Raimunda preparou banana pacovã assada, enquanto outras mulheres fizeram mingau e acompanharam a refeição com o que havia na comunidade.
O cheiro da pacovã assando se espalhou pelo terreiro. Era um perfume tão convidativo que até quem vinha de longe arrumou um motivo para passar por ali.
As crianças correram, os adultos conversaram e os mais velhos contaram histórias. Pela primeira vez em muitos dias, ninguém se sentiu abandonado diante das dificuldades.
Pedrinho, que havia separado duas bananas para comer escondido mais tarde, olhou para uma menina que não tinha conseguido trazer nada para a mesa. Pensou um instante, partiu uma das bananas ao meio e lhe ofereceu.
— Toma. Minha avó diz que comida repartida tem outro gosto.
A menina sorriu. E Pedrinho descobriu, naquela pequena atitude, algo que não aprenderia em livro algum: a alegria de fazer alguém feliz também alimenta o coração.
Naquela noite, conta a nossa lenda imaginada, uma brisa atravessou o bananal, fazendo as folhas largas dançarem sob o luar. Dona Raimunda olhou para as plantas e agradeceu à terra, à água e aos antepassados que haviam ensinado seu povo a viver em comunidade.
E foi assim que a banana pacovã ganhou um significado especial naquela pequena aldeia. Deixou de ser apenas um fruto generoso para se tornar símbolo de partilha, amizade e resistência.
Com o passar dos anos, a história atravessou gerações. Chegou às cozinhas, às feiras, às casas de farinha e às mesas onde a pacovã continuou sendo assada, cozida, frita ou transformada em deliciosas receitas.
E, se você passar por uma comunidade amazônica e encontrar alguém oferecendo uma banana pacovã quentinha, não se surpreenda se ouvir:
— Pode pegar, meu filho! Aqui, ninguém precisa comer sozinho.
Porque, na Amazônia, a riqueza nem sempre está escondida debaixo da terra ou guardada no fundo dos rios. Muitas vezes, ela está no quintal, amadurecendo num cacho, esperando apenas que alguém tenha a sabedoria de repartir.
A MORAL DA LENDA
A banana pacovã pode alimentar o corpo, mas é a generosidade que alimenta a alma. Em uma terra tão grandiosa como a Amazônia, a verdadeira abundância não está somente naquilo que a natureza nos oferece, mas na capacidade de compartilhar suas dádivas com quem precisa.
E dizem, nesta lenda que acabamos de criar, que toda vez que uma pacovã é repartida com carinho, a floresta sorri um pouquinho mais.
Afinal, quem reparte o pão, a farinha ou a banana pacovã nunca divide apenas o alimento: divide esperança, fortalece amizades e mantém viva a alma da Amazônia.
Enquanto houver floresta, haverá frutos; enquanto houver memória, haverá histórias.
Silvia Simões
Cirurgiã Dentista universidade Federal do Amazonas- Especialista em Odontologia – Saúde Pública – Universidade Federal do Amazonas- Especialista MBA em Administração Hospitalar e Gestão de Serviços de Saúde – Universidade Nilton Lins- Especialista MBA em Gestão de Cooperativas – Faculdades Integradas de Taquara-Mestra em Clínicas Odontológicas – Centro de Ensino e Pesquisa de Pós-Graduação do Norte – Professora Universitária- Coordenadora do Curso de Odontologia Hospitalar- Membro da Academia de Literatura, Arte e Cultura da Amazônia (ALACA)-Ex- Diretora Administrativa do sicoob [email protected]
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