Fala-se na impunidade dos crimes como uma das causas; a superlotação dos presídios como outra das causas; a ausência de um sistema penal mais efetivo e mais incisivo; o desmantelamento das polícias, enfim, uma infinidade de causas que passam longe do ato violento, já praticado.
Quero crer que devamos nos debruçar sobre o que torna um indivíduo mais agressivo do que já o é pela condição humana que tem. O homem, a despeito da faculdade de usar a razão, é um ser extremamente agressivo: é o único ser vivo capaz de matar um semelhante sem que para isto esteja em perigo ou com fome. Junte-se a isso o desenvolvimento de uma sociedade egoísta e egocêntrica em que é melhor o mais capaz de tirar vantagens e usufruir essas vantagens, mais a teoria de que o ter é muito mais interessante que o ser e temos os ingredientes básicos para o início da violência. Mais: as oportunidades de crescimento cultural são sempre restritas a pequenas elites.
A mídia e alguns políticos dão a ideia de que todos têm direito às facilidades que só são acessíveis àqueles que podem pagar por elas, esquecendo que é necessário que saibamos que somente o esforço nos permite a aquisição dos bens de consumo. Mais ainda: que na verdade poderemos ter uma vida digna mesmo sem alguns desses bens de consumo.
Ora, as mentes perversas de indivíduos que se consideram espertos a ponto de entender que obter vantagens sem esforço é muito mais importante que a dignidade da luta por metas faz com que o respeito pelo que outros conseguiram com muito trabalho seja reduzido a pó e, por isso, permitem-se o direito de surrupiá-los. Ou então, frustrados por não poder adquirir um presente no Natal da Sociedade Comercial para um filho, como martela a propaganda que diariamente veem e ouvem, roubam ou perdem a cabeça e submetem outras pessoas à tortura da angústia de esperar mais de um dia por um desfecho que pode, com sorte, dar em nada ou, talvez, com a morte de alguém inocente. E ainda não comentei daqueles que, por uma suposta boa causa política, invadem, explodem, roubam e matam: não há causa justa amparada por atos injustos.
Ou somos humanos o suficiente para fazer valer nossas opiniões pelo debate aberto que permita o contra-argumento ou não merecemos a condição tão alardeada de seres racionais. É preciso repensarmos essa sociedade de consumo.
É necessário repensarmos nossos valores. Andar mais devagar, sentir o prazer de longos papos descontraídos, esquecer as grifes, os carros novos, as aparências. Aprender a dividir mais do que somar, embora esta operação seja a mais fácil. Viver cooperativamente, solidariamente. Dar sem esperar receber. Doar-se a uma causa. Aprender a conjugar o verbo apoiar. E também o verbo amar. Enfim, viver! Pois haverá um tempo em que todas as vaidades se tornarão pó e, se alguém olhar a fotografia na lápide, pensará: quem terá sido esse sujeito?
Flávio Lauria
Flávio Lauria possui graduação em Administração pela Universidade Federal do Amazonas, mestrado em Administração Pública também pela UFAM e doutorado pela Universidade de Barcelona na Espanha. Foi Secretário Municipal de Administração, Diretor de Planejamento do Tribunal de Contas do Amazonas, e atualmente é Consultor de Empresas com ênfase em Planejamento Estratégico.
Os artigos, fotos, vídeos, tabelas e outros materiais publicados nesta coluna não refletem necessariamente o pensamento do Portal do Holanda, sendo de total responsabilidade do(s) autor(es) as informações, juízos de valor e conceitos divulgados.




Aviso