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Flávio Lauria

A leuconíqua dos tempos atuais

Flávio Lauria
Por Flávio Lauria
17/08/2026 17h05 — em Flávio Lauria

O estranho vocábulo utilizado no título acima está dicionarizado. Emprego-o entre aspas, por seu exotismo e uso raro. É o nome daquelas manchas brancas que aparecem nas unhas, quando as pessoas exageram em falar mentiras, segundo crença ou sabedoria popular.

Recorro a termo tão extravagante, para lembrar como a mentira é uma transgressão. A todos os códigos. Religiosos, sociais, legais, morais, éticos e políticos. Mentir é uma transgressão incontornável: aquele que nunca mentiu, atire a primeira mentira.

No entanto, como dizia Gustavo Krause, cabe reconhecer que existem mentiras graves, mentiras leves, mentiras folclóricas, as duas últimas inofensivas e, muitas vezes, hilariantes. Comecemos pelas mentiras folclóricas, aquelas criadas pelo mentiroso contumaz, figura pitoresca, real, fonte de inspiração do humor como foi Pantaleão, personagem criado por Chico Anísio.

É tipo inofensivo de mentiroso. Seu prazer é dar asas à imaginação, é exaltar o heroísmo delirante, é acreditar piamente nas próprias mentiras, narradas às atentas plateias como solenes verdades. Na categoria das mentiras leves, estão mentiras sociais, piedosas, convenientes, pecadilho frequente que a gente comete diante do embaraço, por exemplo, de esquecer o casamento da filha do amigo, com a desculpa “Não recebi o convite, culpa do Correio” “Você está mais magra” (a cruel balança diz o contrário), “Você está mais jovem” (não é o que atesta o calendário, nem o que reflete o espelho).

Já as mentiras graves trazem sérios prejuízos aos outros. São criminosas. Enganam o próximo na busca de vantagens ilícitas, sob variadas e engenhosas formas. A mais grave das mentiras graves é a mentira política, aquela em que o autor é político ou, não sendo, mantém relações promíscuas com os ditos cujos. No caso, destacam-se duas espécies: a mentira que nega o delito, sob a forte emoção da voz embargada e de comovente banho de lágrimas ou sob o cínico silêncio protegido por uma liminar.

Ao longo da história, mentira política tem sido o combustível das tiranias e do populismo. No primeiro caso, o embuste serve para manter o poder, no segundo para, iludindo as massas, conquistá-lo. O candidato Flávio Bolsonaro mente, mente e de tanto mentir tão bravamente constrói aos seus aliados, um país de mentiras diariamente. Está a um passo da mitomania.

A desvantagem da mentira, sabe-se, é que precisa ser montada, enquanto a verdade está pronta. Essa a razão básica porque, mais dia, menos dia, a verdade sobrenada a mentira, com o fatal desmascaramento do engodo.

Oxalá, das crises políticas que ora atravessamos tiremos pelo menos a lição da necessidade de nos "vacinarmos" contra a demagogia messiânica de falsos líderes; e na hora de usarmos a arma decisiva da cidadania - o voto - escolhamos mais cuidadosamente nossos representantes e mandatários, em todos os níveis do poder político, no esforço de consolidarmos instituições republicanas efetivamente dedicados aos interesses coletivos e respeitadores dos direitos individuais inscritos em nossa Carta Constitucional.

Flávio Lauria

Flávio Lauria

Flávio Lauria possui graduação em Administração pela Universidade Federal do Amazonas, mestrado em Administração Pública também pela UFAM e doutorado pela Universidade de Barcelona na Espanha. Foi Secretário Municipal de Administração, Diretor de Planejamento do Tribunal de Contas do Amazonas, e atualmente é Consultor de Empresas com ênfase em Planejamento Estratégico.

Os artigos, fotos, vídeos, tabelas e outros materiais publicados nesta coluna não refletem necessariamente o pensamento do Portal do Holanda, sendo de total responsabilidade do(s) autor(es) as informações, juízos de valor e conceitos divulgados.

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