Benin oferece cidadania à diáspora africana com ajuda de Spike Lee
Por Pulcherie Adjoha e Robbie Corey-Boulet
OUIDAH, Benin, 14 Jan (Reuters) - Isaline Attelly, natural da ilha caribenha da Martinica, morava no Benin há quase um ano antes de saber que a ligação de sua família com o país da África Ocidental era muito mais antiga.
Os registros genealógicos confirmaram que sua bisavó materna nasceu no que hoje é o Benin e, no auge da escravidão transatlântica, foi traficada para o outro lado do Oceano Atlântico.
A descoberta no ano passado levou Attelly, uma criadora de conteúdo de 28 anos, a se inscrever em um novo programa que oferece cidadania beninense a pessoas de ascendência africana.
O programa "My Afro Origins" (Minhas origens afro) é uma parte importante do plano do presidente Patrice Talon para aumentar o perfil de seu país, inclusive entre turistas em potencial, destacando seu papel proeminente no tráfico transatlântico de pessoas escravizadas.
"Para mim, é uma fonte de orgulho. Parece que minha jornada completou o círculo", disse Attelly à Reuters após sua cerimônia de naturalização. "Estou orgulhosa e muito feliz por poder representar meus ancestrais."
As primeiras cerimônias de naturalização coincidiram com a revelação de projetos destinados a dar vida a essa história, incluindo uma nova "Porta sem Retorno" em Ouidah, um ponto de partida comum para o tráfico transatlântico de escravos, e uma réplica de um navio do Século 18 que transportava pessoas escravizadas com esculturas dentro representando quase 300 cativos. Ambos ainda estão em construção.
O governo também planeja inaugurar este ano um novo Museu Internacional da Memória e da Escravidão na antiga residência de Francisco Felix de Souza, um importante traficante de pessoas escravizadas nos Séculos 18 e 19.
Talon, que sobreviveu a uma tentativa de golpe no mês passado e deve encerrar seu mandato de 10 anos após uma eleição presidencial em abril, recrutou estrelas para divulgar sua visão.O cineasta Spike Lee e sua esposa Tonya Lee Lewis foram nomeados no ano passado embaixadores do programa para a comunidade afro-americana.
"Nossos irmãos e irmãs em Benin estão nos dizendo: voltem para casa, recebam-nos em casa, voltem para a terra natal. Voltem (para) onde estão suas raízes", disse Lee à France 24 no ano passado.
Em julho de 2025, a estrela norte-americana de R&B Ciara tornou-se uma das primeiras beneficiárias da cidadania beninense. Ela se apresentou na semana passada em um show em Ouidah como parte de um festival anual dedicado ao vodu, tocando sucessos como "Level Up" durante um show que durou até as 3 da manhã.
Seu marido, o quarterback de futebol norte-americano Russell Wilson, compareceu e disse que esperava se tornar um cidadão "muito em breve".
(Reportagem de Pulcherie Adjoha e Robbie Corey-Boulet, em Ouidah; Reportagem adicional de Emmanuel Bruce, em Acra)
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