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Um dos mais antigos do país, clube negro gaúcho surgiu para enterrar corpos de escravizados

PORTO ALEGRE, RS (FOLHAPRESS) - É um lugar-comum atribuir o surgimento de clubes negros pelo Brasil, a partir do final do século 19, à proibição da entrada de pessoas negras em organizações frequentadas por brancos. Conforme a pesquisadora Giane Vargas, professora da Unipampa (Universidade Federal do Pampa), a história do Rio Grande do Sul é ainda mais cruel do que isso.

"Não frequentar espaços ocupados por brancos era algo tão posto que não era sequer problematizado. Clubes negros como o Floresta Aurora surgiram foi das necessidades básicas dessas pessoas", diz.

Prestes a completar 150 anos, é o clube social negro mais antigo do Brasil encontrado na pesquisa de mestrado de Vargas. A dissertação, intitulada "Clubes sociais negros: lugares de memória, resistência negra, patrimônio e potencial", mapeou mais de 200 instituições desde o século 19 no país.

No caso da Sociedade Cultural Floresta Aurora, hoje localizada no bairro Belém Novo, em Porto Alegre, a necessidade era arrecadar dinheiro para dar um fim digno ao corpo de pessoas escravizadas, até então enterrados em valas rasas. Algumas vezes, tratavam-se de pais de homens e mulheres negros já alforriados.

Outros recursos eram usados para ajudar a comprar carta de alforria, dado que a fundação do clube, 31 de dezembro de 1872, é anterior à abolição da escravatura, de 13 de maio de 1888.

Ao longo de sua história, o Floresta Aurora serviu como referência para a comunidade negra local. Teve entre seus sócios e conselheiros nomes como o de Tesourinha, atacante do Inter que fez parte do chamado "Rolo compressor", time histórico da década de 1940.

Uma foto de 1944 mostra o jogador ao lado dos colegas negros Alfeu e Ávila em homenagem prestada pelo Floresta Aurora. Atrás deles, os dirigentes negros são os do Floresta. Os brancos, os do Inter.

Mesmo enfatizando a sua negritude, o clube aceita e incentiva o ingresso de sócios brancos.

"Combatemos o racismo, mas nosso emblema literalmente é a igualdade. Nosso brasão leva duas mãos, uma negra e outra branca, se cumprimentando", declara Gilmar Afrausino, atual presidente.

Segundo seus dirigentes, o Floresta Aurora completa 150 anos lutando pela sua sobrevivência, como o faz desde a fundação. A situação tornou-se mais dramática na pandemia da Covid-19, quando ficou com as portas fechadas.

De acordo com o vice-presidente de finanças, Sérgio Luiz Fonseca, o clube conta com menos de cem sócios com a mensalidade em dia, mesmo praticando valores acessíveis.

Enquanto outros clubes sociais de Porto Alegre chegam a cobrar R$ 6.000 pelo ingresso –a chamada "joia"– e mensalidades em torno de R$ 350, o Floresta Aurora cobra R$ 150 para novos associados e mensalidade mínima de R$ 50.

O clube conta com campo de futebol e duas piscinas, além de mais de 5.000 metros quadrados de área verde.

"Temos a expectativa de que esse número melhore com a retomada e com os festejos dos 150 anos. Porém o futuro do clube passa por ser financiado menos pelo quadro social e mais pela captação de recursos de outras fontes que exigiram algumas mudanças na organização do clube, como emendas parlamentares", declara Fonseca.

Um dos desafios financeiros é a manutenção da sua sede, que desde 2013 está em uma região rodeada por sítios e comunidades pobres no bairro Belém Velho.

É quarta sede da agremiação, que, como outras instituições culturais negras de Porto Alegre, parece ser expelida do centro da cidade conforme as regiões se desenvolvem e a expansão imobiliária toma conta.

Fundado na Lima e Silva, na região central, o Floresta Aurora já se mudou para dois endereços na zona sul, perto da orla, nos bairros Cristal e Pedra Redonda.

Após enfrentar um processo de moradores e temer pela desapropriação, o clube fez uma permuta de sua sede em Pedra Redonda em troca do terreno em Belém Velho, até então uma propriedade particular alugada para eventos.

O lado positivo é que o Floresta Aurora encontrou ali comunidades carentes necessitando tanto de auxílio quanto de esporte e lazer, o que remonta às origens do clube.

Em dias quentes de verão, o acesso já foi liberado a crianças da vizinhança. "Na pandemia, coletamos cestas básicas, kits escolares, agasalhos e sapatos para os moradores ao nosso redor. Conseguimos atender a todas elas, e ainda sobraram recursos para uma comunidade quilombola. Então, acho que é mais correto dizer que abraçamos a comunidade tanto quanto fomos abraçados por ela", declara Afrausino.

Em 2022, o clube planeja diferentes celebrações dos 150 anos, que incluem um seminário em uma parceria com a UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), um baile de final de ano e a publicação de um livro. Vargas, envolvida na pesquisa para a publicação, cobra mais atenção do poder público.

Neste mês, um projeto de organização e documentação dos 150 anos do clube bateu na trave na tentativa de obter R$ 150 mil de um edital da Secretaria Estadual da Cultura. Ficou como um dos suplentes.

"A própria existência do Floresta Aurora já é uma ação afirmativa e diz algo para todos nós", diz ela. "A própria resistência ao ter sido expulso de um bairro central e conseguir se manter em outro bairro, mesmo na periferia e bem mais distante, já é uma ação extremamente política de organização. Nosso corpo negro dentro daquela instituição diz algo."

Afrausino defende que vale a celebração, mas também ação concreta. "Nós queremos os parabéns, sim, pelos 150 anos. Mas também queremos recursos para preservar esse patrimônio."

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