Moscou O goleiro russo Vassily Frolov aposentou-se cedo dos campos — muito antes do que imaginavam parentes e amigos que apostavam todas as fichas em uma carreira brilhante. Afinal, quem sai aos seus, não degenera. Mas foi exatamente esse o problema deste jovem talentoso e promissor que cresceu no mundo do futebol: carregava sobre os ombros (e quem sabe entre as traves do gol) um peso do tamanho da maior lenda do futebol soviético. Ele é neto de Lev Yashin, o Aranha Negra. Há duas profissões de heróis na Rússia ainda hoje: a de goleiro, justamente por conta da genialidade do avô de Frolov, e a de astronauta, festejada pelo feito de Yuri Gagarin, o homem que foi à lua. O filho pequeno de Frolov parece gostar de tudo o que vem do espaço. Quem sabe não será um cosmonauta. A perspectiva faz o pai respirar com certo alívio.
Foi aos 18 anos, depois de jogar profissionalmente pelo Dínamo Moscou e de ser campeão duas vezes que a ficha caiu. O sarrafo para o seu desempenho não poderia ser mais alto. Ele tinha futuro, mas não aguentou o tranco psicológico.
— Com a idade, entendi o grau da genialidade do meu avô. Eu não conseguiria ser uma estrela igual e isso seria uma falha. Tive problemas psicológicos, meu nível de jogo começou a cair e fui para a segunda divisão. Foi aí que decidi parar. Tinha 22 anos — conta em entrevista ao GLOBO, em um restaurante de onde se vê o estádio do Spartak, para o qual o torce o nariz (ele é Dínamo desde criança, como o avô), com casaco e calça de moletom negros, com o nome Yashin escrito em branco no peito e o desenho estilizado de um goleiro nas costas.
Hoje, ele usa o talento e a experiência de tantos anos (começou a jogar aos sete) para ensinar às novas gerações de goleiros. Sua escola não poderia ter outro nome. Chama-se Lev Yashin. A nova vida o mantém vinculado ao avô, mas agora com uma proximidade que o deixa feliz e realizado. É bem-sucedido. Nomes importantes do futebol russo já passaram por ali.
O convívio com Yashin foi curto. O avô morreu quando tinha apenas quatro anos de idade. Frolov parece já ter o roteiro das histórias na cabeça. Esta não é a primeira, nem será a última entrevista que dá a jornalistas estrangeiros. Mas elas parecem fluir com mais naturalidade depois de falar da sua própria vida, sobre a qual, diz, não costumam perguntar. Frolov conta a única memória que tem do avô. Ele estava deitado, coberto, em uma cama alta, mais alta do que o menino. Ao vê-lo, abriu o cobertor para que entrasse.
— Vi uma perna inteira e o vazio da segunda (Yashin havia amputado uma perna, por causa de uma tromboflebite). Mas não foi isso o que mais me chamou a atenção. Foi o calor e a calma que senti quando mergulhei na cama com ele — recorda.
Um jovem de 17 anos
Aos 86 anos, a avó, Valentina Timofeevna, viúva de Yashin, preferiu não dar entrevista. Estava cansada. Mas Frolov acabou decidindo levar a reportagem do GLOBO em seu carro até o prédio onde ela viveu com o goleiro que habita o imaginário de todo russo. Fazia isso porque gostava dos brasileiros e, como bom russo, queria ser convidado um dia para passear em Copacabana vestindo uma calça branca (esse é um sonho russo e uma das principais referências que têm do Brasil: a do bandido que foge para o país para desfilar tranquilamente pela Praia de Copacabana, no filme “As doze cadeiras”, de Ostap Bender). Mostrou a janela do apartamento, que, segundo ele, a avó mantém como uma espécie de museu do falecido marido. Foi dali que, sem que ninguém soubesse, tirou a bola que levou para jogar uma pelada com um primo no campo que hoje virou uma cópia de uma das torres stalinistas.
— Era um dia de chuva, o campo era horrível e estava cheio de lama e pedras. Eu devia ter uns oito anos. Jogamos por horas. Quando voltamos para casa, minha avó perguntou que bola era aquela. Ela nos contou que tinha o autógrafo do Pelé para o meu avô. Não entendi o que significava isso à época. A assinatura foi apagada... — conta.
Mas o estrago foi reparado. No ano passado, quando esteve com o rei, pediu que assinasse novamente a bola e a devolveu para a avó. Por sinal, nos idos de 1958, Yashin revelara à mulher o gênio que reconheceu no brasileiro, de quem se tornou amigo. Ela foi com o marido à Copa do Mundo na Suécia e foi apresentada ao jovem de então 17 anos.
— Veja, Valya (apelido de Valentina). Apresento a você esse que vai ser o melhor jogador de futebol do mundo: Édson Arantes do Nascimento — conta Frolov, repetindo o nome de Pelé devagar, para não perder nenhuma sílaba.

