Se a seleção brasileira é mundialmente famosa pelas conquistas no futebol, domesticamente o time nacional ainda enfrenta a pecha da ausência de uma torcida de verdade. Entretanto, a falta de canções típicas de arquibancada é uma ingrata tradição que muitos brasileiros estão se esforçando para encerrar. Recentemente, alguns foram movimentos foram criados nesse sentido e, de tempos em tempos, alguns vídeos com letras originais fazem sucesso na internet.
Nessa quarta (20), no momento da chegada da delegação ao seu hotel em São Petersburgo, centenas de torcedores foram ao local promover uma festa de recepção. Muitos jogadores, como Neymar, gravaram o momento em que as pessoas cantavam a música, e postaram na internet. A canção, então, que já vinha fazendo sucesso na internet, caiu de vez na boca do povo. Para muitos, é a esperança de dar fim à enfadonha "Sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor".
O compositor da música é o paulista Luiz Carvalho, natural de Guaratinguetá, mas torcedor do Vasco, por causa da torcida carioca. Ele é um dos fundadores do Movimento Verde e Amarelo (MVA), um dos grupos que tenta implantar a cultura de arquibancada entre torcedores da seleção brasileira. Carvalho, porém, admite que a sua canção não era a sua principal aposta para hit da copa. Ele acreditava que letras mais curtas, como a "Vamô pra Moscou", no ritmo de Aquarela do Brasil, e "O meu Brasil vai ser campeão", paródia de Bella Ciao, dariam mais certo.
Mas não há o que reclamar sobre o resultado do viral. Carvalho, que está na Rússia, diz que a torcida brasileira no país-sede está lhe surpreendendo. Ainda que a lógica do "torcedor de teatro" prevalecer, ele enxerga uma evolução no comportamento geral nas arquibancadas desde a África do Sul, a primeira Copa do MVA (o grupo foi fundado em 2008, por amigos da USP).
— No meu entendimento ainda temos uma torcida mais fria, mais espectadora do que torcedora. Tem muita gente que vem para fazer turismo, tirar foto, comer pipoca e beber cerveja no estádio, em vez de apoiar. Um estilo que no meu entendimento é bizarro e não faz sentido. Porque a torcida faz parte do espetáculo, é parte integrante do time e ganha jogo - explica Carvalho, que definiu a torcida na Copa no Brasil como "a maior vergonha da história do futebol mundial". — Aqui nosso desempenho foi patético, com certeza a torcida jogou contra, passando insegurança para o time. Como não tinha música, ficaram vaiando.
Mesmo que devagar, a evolução da torcida brasileira é evidente. Para Carvalho, a Copa América no país, ano que vem, será um bom termômetro. Ele diz que três frentes seriam essenciais para impulsionar de vez os movimentos de torcedores de seleção: a mídia, divulgando as ideias; a CBF, que poderia facilitar a entrada de instrumento nos estádios e a logística para que todos fiquem juntos nas mesmas fileiras; e patrocinadores, com campanhas de divulgação e oferta de estrutura para eventos.
Para a Rússia, o MVA fez uma intensa preparação de logística e confecção e compra de produtos. Os torcedores levaram apetrechos como chapéus, óculos, bandeiras e instrumentos, como surdo e caixa. Nessa quinta (21), o MVA fez uma espécie de ensaio geral perto do estádio de São Petersburgo, onde a seleção vai jogar.
— Foi sensacional. No estádio fica mais difícil, porque muitos ingressos são em lugares distantes, e nem todos instrumentos podem entrar, mas a gente já um jeito na "brasileiragem". Se todo mundo comprar nossa briga, e perceber que tem que botar raça noa arquibancada, nossa torcida pode fazer um papel maravilhoso. Não adianta só fazer foto e vídeo no instagram, tem que cantar na hora do jogo também — explica Carvalho.

