Mônaco Na última segunda, Edwin Moses chegou faminto a Montecarlo, depois de enfrentar nevasca e o atraso de um voo, mas não desmarcou a entrevista agendada com cinco veículos, entre os quais o GLOBO. Antes da conversa, o vegetariano apenas pediu uma pizza, que só devoraria depois. No dia seguinte, o ex-atleta de 62 anos receberia o Laureus especial pelo conjunto de sua vida e obra, em que obstáculos foram — e continuam sendo — pulverizados como se feitos de areia.
O americano de Dayton, em Ohio, é o maior nome da história dos 400m com barreiras. Logo após conquistar o ouro em Montreal-1976, reinou invicto de 26 de agosto de 1977 — quando foi derrotado aos 22 anos por Harald Schmid — até 4 de junho de 1987, em que ficou atrás do vencedor e compatriota Danny Harris numa torneio em Madri. Nesses quase dez anos, 107 finais consecutivas, 15 preliminares, o ouro de Los Angeles-1984 e quatro recordes mundiais tiveram dono. Não fosse o boicote americano aos Jogos de Moscou-1980, Moses poderia ter conquistado outro ouro, já que, naquele mesmo ano, estabelecera outro recorde. Mas sua maior vitória se deu nos últimos sete meses, quando voltou a caminhar depois de dois acidentes que o deixaram paralisado da cintura para baixo.
— A história toda não fazia sentido: tropeçar nos degraus de uma escada, depois bater a cabeça entrando num carro e ficar assim. Meu cérebro se desconectou, eu tinha coágulos enormes no cérebro. Pela natureza das minhas lesões, sabia-se que poderia ser temporário, mas eu poderia não voltar a andar nunca mais. Saber quanto tempo iria durar era o mais assustador — conta ele, que levava às vezes 20 minutos apenas para se levantar da cama, e precisou de ajuda para as tarefas mais cotidianas, como se alimentar.
Questionado sobre como cuidou da mente, tendo sido sempre tão rápido na carreira, Moses foi taxativo:
— Em primeiro lugar, nunca tive pena de mim mesmo, até porque tenho amigos paralímpicos, gente que nunca vai voltar a andar de novo. Tive que ficar calmo e trabalhar na fisioterapia, mais até do que os médicos queriam que eu trabalhasse inicialmente. Já se foram sete meses, e ainda tenho muito tratamento a fazer. Voltarei à fisioterapia em julho.
Moses está acostumado a ser uma inspiração através do esporte. Assim que deixou as pistas, após o bronze em Seul-1988, liderou a primeira iniciativa para testes antidoping independentes entre o chamado esporte amador.
Por esse motivo, chamou a atenção que Justin Gatlin estivesse entre os indicados ao Prêmio Laureus de Melhor Retomada do Ano, vencido pelo tenista Roger Federer. À exceção do fato de que o americano superou Usain Bolt no Mundial de Londres nos 100m, Gatlin só é considerado “retomado” porque atravessou duas punições por doping na carreira.
— Gatlin teve dois testes positivos, mas é preciso entender a natureza entre os dois. O primeiro era para uma medicação contra Transtorno de Déficit de Atenção (TDA), algo que muitos atletas continuaram a tomar depois, porque era completamente legítimo. Se fosse hoje, não seria sequer uma questão. Pessoalmente, não vejo como doping, porque não era. O segundo doping de Gatlin (por testosterona, o que lhe tomou 4 anos nas pistas, voltando apenas em 2010) é diferente. Na Academia do Laureus tivemos muitas conversas sobre isso, e cada caso precisa ser visto de forma diferente, tem a ver com as punições e os tipos de drogas. Por exemplo, se um homem toma clomifeno, é porque ele quer acobertar algo. Mas mulheres poderem tomar clomifeno para tentar engravidar, ou equilibrar hormônios, o que é perfeitamente legítimo.
Muitas vezes, questões de doping esbarram em genética e em questões de gênero. A presença da sul-africana Caster Semenya na lista de Melhor Atleta Feminina do Ano — vencida pela tenista Serena Williams — acaba sendo um outro tema a indagar Moses.
Semenya, que reinou nos 800m do Rio-2016 e do Mundial de 2017, enfrentou muitos questionamentos devido à hiperandrogenia de seu corpo, que produz testosterona num nível incomum. Além disso, neste ano, são esperadas atualizações das diretrizes do COI a respeito da participação de mulheres trans (ou seja, que nasceram homens) no esporte feminino, enquanto a Federação Internacional de Vôlei, a reboque do caso da brasileira Tifanny, do Bauru, criou um grupo de estudos para tratar da questão. Será que, no futuro, haverá decisões no mundo esportivo que finalmente integrem os atletas numa situação intermediária entre os sexos?
— Tenho uma colega que é professora na Duke University, e ela escreveu uma tese seminal sobre gênero, esporte e leis, e sobre como lidamos como pessoas como Caster Semenya. É uma questão muito delicada, porque ninguém nasce completamente homem ou mulher, há pelo menos 15 ou 16 categorias no meio — explica. — Há mulheres que podem produzir tanta testosterona quanto um homem médio. É algo que o mundo dos esportes, IAAF, CAS, COI... Temos que olhar as pesquisas, as leis, e ver em que categorias essas pessoas estão. Você pode geneticamente ser um XYY ou XXY, e é muito difícil ser justo com todo mundo.
crítica a donald trump
Moses acredita que as decisões a respeito da entrada de transgêneros no esporte terá mais definições antes de Tóquio-2020. E espera que o processo até a definição não seja tão político quanto poderia ser.
— Se tivesse um irmão ou uma irmã nessa condição, tentaria conseguir toda a informação possível, encontrar todas as diferentes implicações e descobrir como isso afeta competidores em diferentes esportes. É muito complicado — reconhece. — É preciso ter coração para encarar essas questões, porque você está falando de pessoas reais, com condições que não têm nada a ver com fazer uma escolha ou trapacear ou tirar vantagem de algo.
Hoje, Moses é especialmente atuante em iniciativas esportivas de cunho social e, em janeiro, deu início a um projeto direcionado a comunidades latinas em Nova York. O tema leva a questionamentos sobre Donald Trump, que suscita muitas críticas principalmente dos atletas negros de elite.
— Oh, Deus… Às vezes acho que alguém tem que colocá-lo num ringue com alguém que o deixe lutar até botar tudo para fora, sentar e ficar estável — disse Moses, comentando ainda o posicionamento público de astros do esporte, como LeBron James. — Atletas costumam abordar temas políticos nos Estados Unidos. E isso vai muito além de concordar com as políticas dele ou não.

