Sentado na segunda fileira da tribuna de imprensa, de frente para o meio da quadra da Market Square Arena, eu levei um susto, logo após o Marcel ter acertado aquela cesta de três pontos com o cronômetro zerado e a sirene marcando o fim do primeiro tempo. Ao meu lado, o “Eclético” Orlando Duarte, jornalista de tantos livros e coberturas internacionais, sacou da bolsa uma zebra de pelúcia e a colocou sobre a bancada. “Vai ficar aqui até o final. Vamos virar!”, vaticinou. O Brasil acabara de reduzir para 14 pontos (54 a 68) a desvantagem diante da favoritíssima seleção dos Estados Unidos, na decisão da medalha de ouro no basquete dos Jogos Pan-Americanos.
Repórter novato, fazendo pelo GLOBO apenas minha segunda cobertura internacional naquele Pan-1987, em Indianápolis, virei-me para o veterano e quase supliquei: “Tira isso daí, Orlando! Vamos acabar passando vergonha aqui, sendo advertidos”. O colunista da “Gazeta Esportiva” gargalhou e manteve ali o amuleto, que ele ganhara na noite anterior, num shopping de frente para o Centro Principal de Imprensa de Indianápolis, onde arriscara a sorte num jogo de arremesso de bolas (não eram de basquete!).
É verdade que nem eu quis mais tirar da bancada aquela zebra de pelúcia do Orlando quando o Brasil iniciou a inimaginável reação no segundo tempo. Depois do sexto arremesso consecutivo de três pontos convertido pelo Oscar nos 20 minutos derradeiros, os brasileiros no ginásio se tornaram assistentes do técnico Ary Vidal. “Defesa!” “Rebote!” “Marca!” “Chuta, Oscar!”, ouvia-se nas cadeiras e até na tribuna de imprensa.
O “Mão Santa” fez 35 dos seus 46 pontos na segunda etapa, com precisão cirúrgica, até desabar em lágrimas ao final do jogo, diante de 16.408 atônitos torcedores com o placar de 120 a 115 para o Brasil. Do lado esquerdo da quadra, Marcel, outro herói do jogo com 31 pontos, agarrou-se à base da tabela, numa imagem que virou alto de página da capa do “New York Times” da segunda-feira seguinte. Juntos, Oscar e Marcel marcaram 55 dos 66 pontos do Brasil naquela segunda etapa. Houve atraso na premiação, até os americanos encontrarem o hino brasileiro, trazido de outro lugar e tocado para o surpreendente ganhador do ouro.
Entre lágrimas, fui tratar de me recompor e escrever sobre aquele resultado épico. Aquele domingo, 23 de agosto de 1987, de um tempo sem internet e celular, tornou-se um dia especial na minha vida. Primeira derrota americana em casa no basquete, e por mais de cem pontos. Por muitos anos, fiquei imaginando que emoção maior poderia sentir como jornalista. Cobri sete Olimpíadas e sete Copas do Mundo desde então. Vi, ao vivo, no Rose Bowl de Pasadena (EUA), em 1994, e no Estádio de Yokohama, no Japão, em 2002, o Brasil conquistar dois títulos mundiais de futebol, que também me emocionaram. Não da maneira como me deixei levar pela conquista daquela seleção de basquete.
A zebra de pelúcia do Orlando Duarte, nem sei onde foi parar. Trinta anos depois, continua na minha memória afetiva, assim como aquela vitória, o inesperado final mais feliz da minha vida de tantas e tantas coberturas.
*Chefe de Produção de Jornalismo do Sportv. Cobriu o Pan-1987 pelo GLOBO

