Início Esportes Conheça a fominha do aterro que chega às 18h e só sai depois que os marmanjos desistem
Esportes

Conheça a fominha do aterro que chega às 18h e só sai depois que os marmanjos desistem

Envie
Envie

A chuva fina não espantou Carol, que, às 18h de uma segunda-feira, já estava no Parque do Flamengo. De short curto e regata justa, evidenciando pernas torneadas e seios turbinados por silicone, a moça de 21 anos vai de quadra em quadra até cavar vaga entre craques e perebas do santuário urbano do futebol.

O ambiente essencialmente masculino não a intimida — ao contrário. Com seu jeito marrento, Carol parece estar em casa no Aterro. Mesmo assim, tomou um fora de prima e foi recusada.

— Viu que aqueles meninos arregaram? — brinca, referindo-se a um grupo de adolescentes que não aceitou ir com ela para uma quadra vazia. — Não dá para ficar tímida, com receio de entrar. Tem vezes que não dá certo.

Três vezes por semana, há dois anos, o ritual se repete, atestado pelo GLOBO por três semanas. Ana Carolina Barbosa, de 21 anos, encaixa o cão yorkshire Spaek dentro de uma mochila, com a cabeça para fora, sobe numa Honda Bis 125 branca, e saem do Santo Cristo até o Flamengo devidamente paramentados — ela com capacete, ele com óculos. O cachorro fica na casa da mãe, Regina, na Glória, e ela vai até o Aterro. Chega por volta das 18 horas e só sai de madrugada. Quando uma turma cessa, procura outra. Até não ter mais com quem jogar.

— Chego em casa morta, mas feliz — diz a moça de 1,54m e 52kg, que chama a atenção pela atitude.

Segundo ela, para frequentar o local, basta “se impôr e jogar bola”. Quando recebe o O.K. para entrar na brincadeira, não economiza nos lances de efeito, nem tira o pé nas divididas: passa o pé sobre a bola, faz gol, reclama de um lance aqui e outro ali, e tira onda sempre que pode. Prefere jogar com homens já que, segundo ela, as partidas femininas são “muito fracas".

— Já cheguei a marcar 14 gols numa tacada só entre mulheres. Não dá, né? — diz Carol. — Tenho facilidade para jogar com homens e, além disso, ganho habilidade, força e resistência. E também fico mais roxa, porque o chute na canela é mais forte. Ninguém alivia.

O barbeiro Paulo Lopes, 23 anos, diz que já se acostumou com o jogo dela:

— Tem disposição e é forte. Joga melhor do que muito homem.

E é corajosa. Afinal, os campos ficam na área da 9ª DP (Catete), que registrou 210 roubos em janeiro, segundo o Instituto de Segurança Pública (ISP) — é como se sete pessoas fossem assaltadas a cada dia. Para ela, nada disso assusta.

— Meu pai me ensinava a lutar, atirar e tudo. Era para me defender. Mas nunca precisei. Nunca fui roubada — diz Carol, que desdenha da pergunta sobre o Aterro à noite. — Perigoso? Você não sabe o que é perigoso.

Tragédia em família

Divertida, desbocada, ligada no 220V, Carol é um “vulcão”, nas palavras da avó Mauricea, de 75 anos, que sonhava com vê-la rodopiando no balé como a filha, Regina, que trabalha no Theatro Municipal e tem outra filha, Alessandra, de 9 anos.

— Com a mais nova dei sorte. Ela é calma, cômica, mais medrosa e não gosta de briga. A Carol já tem esse jeitão, mas é boa nas coisas que faz. Como bailarina, aos 8 anos, era um luxo.

Aos 50 anos, a mãe diz que se reconhece na filha. Quando criança, também jogou futebol com meninos num clube na Saúde, mas preferiu o balé. Já o pai de Carol detestava futebol.

Paulo era capitão do Bope e, segundo a mãe, gostava mais de música e dança de salão. Ele sofreu um ataque cardíaco fatal há oito anos, pouco depois de um assalto a mão armada no sítio da família. Carol conta que tinha 13 anos quando ele caiu no chão no meio da calçada. Morreu em seus braços.

— Para mim foi melhor ele morrer de infarto do que de tiro — diz, sem rodeios.

Meses depois da morte dele, quando já recebia uma pensão do estado como órfã de policial, Carol decidiu deixar a casa da mãe e morar com o namorado, Leonardo Vianna, que já trabalhava. Recentemente ela, que só tem o ensino médio, iniciou curso preparatório para técnica de necropsia e planeja ser policial. Leonardo, hoje com 25 anos, tem dois foodtrucks de hambúrgueres no Caju.

Ele diz que, há cerca de dez anos, quando se conheceram em um baile funk, Carol era “mais meiga". Chegaram a jogar bola juntos no Santo Cristo, mas ele não gosta de futebol: foi apenas um “investimento para conquistá-la”. Hoje, Carol tem de o ciúme dele para jogar três vezes na semana.

— Nem vou com ela ao Aterro porque vai dar ruim. — disse ele, que já teve de buscá-la algumas vezes. — Eram 3h e nada. Fiquei preocupado. Mas o pior mesmo é na praia. Quer jogar altinha de biquíni, chamando essa atenção...

Para Leonardo, Carol fica de mal humor quando não joga. Não faz muito, ela machucou um dedo do pé e parou por 15 dias. As brigas em casa se multiplicaram; era melhor ela voltar a jogar logo.

— Ele sabe que sou assim e que não vou mudar — diz Carol — Já disse que ele poderia ir embora. Se eu quisesse fazer besteira, poderia ser em qualquer lugar. E aqui, na pelada, só tem “bicho feio" — ri, de posse de um feminismo ganho na raça — Por que mulher não pode jogar bola? Mulher pode tudo.

Siga-nos no

Google News