Uma coisa é jogar na altitude. Outra é jogar em Potosí. Das condições extremas criadas pelos quatro mil metros acima do nível do mar à falta de estrutura da cidade, que transforma a chegada ao estádio numa prova sacrificante, atletas são submetidos a algo que ultrapassa o limite da sensatez. O Fluminense foi apenas a vítima da vez, ainda que tenha assegurado sua classificação com a derrota por 2 a 0, à base de boas doses de bravura.
— Isso aqui é uma experiência de vida — disse o zagueiro Gum. — Um passando mal, outro caindo. Vamos contar essa história para os nossos netos.
Fica a pergunta: é justo submeter um atleta a isto? Em cidades altas, recomenda-se chegar perto do horário dos jogos para minimizar os efeitos, como vômitos, tonturas, sangramentos no nariz, perda da oxigenação. Mas Potosí tem peculiaridades. Para ir por terra, usa-se a perigosa e sinuosa estrada desde Sucre. Nem isso o Fluminense pôde fazer, por causa de bloqueios. Ocorre que o aeroporto tem estrutura limitada, algo também temerário, que obrigou o tricolor a chegar nove horas antes da partida e entrar em campo mais debilitado do que ocorreria se pudesse chegar logo antes do jogo. Heroísmo é algo bonito no esporte. Mas tudo tem seu limite.
Seja viajar três horas de ônibus para jogar a quatro mil metros de altura, seja obrigar um clube a fretar aviões para transportar um time e pousar num aeroporto modestíssimo, tudo isso soa como assumir riscos demais em nome de um jogo de futebol. Abusar da saúde do jogador, impor sacrifícios acima dos esforços naturais a que atletas já são submetidos. A justificativa, em geral, é que “todos os povos têm direito a receber jogos.” Como se uma partida de futebol fosse um bem essencial à sobrevivência.
O caso é que o Fluminense resistiu num ambiente em que análises táticas soam despropositais. Bastava adiantar minimamente sua defesa que o tricolor se expunha a riscos. Porque lançamentos às costas dos defensores eram tudo o que o Nacional Potosí queria. Naquela altitude, a diferença de velocidade entre um time e outro era notória. Júlio César fez três boas defesas, uma bola tocou a trave e um time primário se transformou em ameaçador. Ou seja, qualquer lógica do jogo estava subvertida.
Aos poucos, o Fluminense ajustou a marcação, trocou passes curtos e até ameaçou com Gilberto e Pablo Dyego.
Jogos nestes locais logo criam o teatro do absurdo. A curiosidade passa a ser quantos jogadores vão passar mal, por exemplo. Marcos Júnior nem jogou, pois sentiu antes de a bola rolar. No primeiro tempo, Richard claudicou, depois Ayrton Lucas, substituído no intervalo.
melhora após os gols
Veio o segundo tempo, e Reina, aos cinco minutos, fez um gol num espaço entre Marlon e Renato Chaves. Pouco depois, o jogo se transformou em drama esportivo — drama físico, a partida já era. O juiz viu pênalti de Jádson e Reina fez 2 a 0.
Curiosamente, o Fluminense viveria seu melhor momento em seguida, trocando passes e criando ao menos três ótimas chances. Mas não finalizou bem. Houve tensão até o fim, mas com muita luta o tricolor garantiu a vaga.

