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Alexey Sorokin: a cartilha política peculiar à frente da Copa

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Alexey Sorokin evita gastar tempo com apresentações. Bem ao estilo russo, responde sem rodeios a qualquer pergunta. Ao receber O GLOBO na tarde de ontem, o recém-empossado presidente do Comitê Organizador (COL) da Copa de 2018 ensaiou uma resposta técnica, quase blasé, ao ser questionado sobre os estádios do torneio — “são 12, é bem simples”. Manteve o tom quando instigado a descrever como a Rússia se exibirá ao mundo entre 14 de junho e 15 de julho deste ano:

— A Copa vai mostrar as qualidades objetivas do nosso país. Aqui vivem pessoas adequadas e boas.

Estar debaixo dos holofotes é novidade para Sorokin, embora sua trajetória quase sempre tenha flertado com a vitrine. Após coordenar a campanha de Moscou para receber a final da Liga dos Campeões, em 2008, Sorokin se aproximou definitivamente do esporte com a benção de Vitaly Mutko, ex-ministro do Esporte e presidente da União de Futebol da Rússia (RFU). Com Mutko no poder, Sorokin virou diretor-executivo da federação, liderou a candidatura para sediar a Copa de 2018 e depois foi seu braço-direito no Comitê Organizador. O vácuo aberto pelo chefe, que deixou seus cargos após ser envolvido no escândalo de doping russo no esporte olímpico, alçou Sorokin ao comando da organização da Copa no fim de dezembro.

Depois de uma década de ascensão gradual, Sorokin vê seu traquejo político ser testado a menos de seis meses do Mundial. Mostra-se alinhado à cartilha do governo ao desqualificar preocupações relacionadas à Copa. O temor internacional do hooliganismo na Rússia, por exemplo, é visto pelo presidente do COL como “mais um problema inexistente”. Para o dirigente, as brigas constantes entre russos e ingleses durante a Eurocopa de 2016, na França, não representam “ameaça ou risco muito grande” em território russo, “tampouco um fenômeno social de larga escala”.

Denúncias de trabalho ilegal em obras como o caríssimo estádio de São Petersburgo, avaliado em cerca de R$ 2,5 bilhões, são “boatos sem prova documental” no entendimento de Sorokin. Relatos de que muitos voluntários da Copa não falam inglês? “Muito difícil de acreditar, com todo o respeito”. Nesse contexto, as críticas à imprensa europeia e dos EUA surgem naturalmente:

— Sempre há boatos. A situação em torno da Rússia não é muito fácil, digamos assim. Cada jornalista tem sua opinião. Há pessoas que apoiaram, e outras que não concordaram com a Copa ser realizada na Rússia — ensaia Sorokin, antes de arrematar com a frase e com o sorriso que parecia conter desde o início da resposta:

— Creio que os jornalistas britânicos gostaram mais da ideia de que a Copa fosse na Inglaterra (risos). Mesmo assim, a Copa será na Rússia. Isto é uma certeza absoluta. Não há o que discutir. O pessoal tem que aceitar, vir para a Rússia e curtir a Copa.

Sorokin se refere, é claro, à acusação feita por jornais britânicos de que a Rússia se elegeu sede do Mundial de 2018 à base de propinas. Tais denúncias ganharam força dias antes da votação, há oito anos. A candidatura russa era a prova dos nove para Sorokin, formado em Línguas e com carreira construída até então na área de relações internacionais, incluindo trabalhos em bancos e no Ministério de Relações Exteriores.

Em Sorokin, contudo, o discurso de perseguição internacional contra a Rússia não soa como dogma, tampouco visceral. Enquanto fala sobre jornalistas ingleses, por exemplo, o presidente do COL gesticula diante de um quadro com uma foto rara, daquelas que não se encontra no Google, da despedida de Lev Yashin. O lendário goleiro soviético, hoje transformado em pôster da Copa do Mundo, pendurou as luvas em 1971, com um amistoso entre seu Dínamo de Moscou contra um combinado de estrelas mundiais. A imagem que adorna o escritório de Sorokin mostra um cumprimento, no início daquela partida, entre Yashin e o britânico Bobby Charlton — justamente um dos embaixadores da candidatura inglesa que rivalizou com a Rússia pelo posto de país-sede desde Mundial.

A política de boa vizinhança ganha cor quando o assunto chega ao Brasil. Abandonando um pouco o tom crítico, Sorokin evita tocar em feridas da organização do último Mundial.

— Não podemos falar dos erros dos brasileiros, afinal a Copa foi fantástica — diz Sorokin, agora com um sorriso mais discreto. — É claro que conversei com colegas brasileiros, como o (diretor-executivo do Comitê Organizador da Copa de 2014) Ricardo Trade. Ele me deu conselhos sobre pontos em que deveríamos prestar atenção e também sobre particularidades no trato com a Fifa. O mais importante é que a infraestrutura esteja pronta com antecedência. Isso torna tudo mais fácil.

A infraestrutura russa, contudo, não está pronta. Dos 12 estádios citados por Sorokin no início da entrevista, ele reconhece que apenas cinco estão totalmente prontos. Mesmo assim, calcula que 97% das obras estejam finalizadas. No início do mês, o site russo RBK — que teve atritos recentes com o governo após publicar reportagens sobre corrupção — noticiou que o Ministério do Esporte estava processando construtoras de estádios, exigindo indenizações de R$ 165 milhões pelos atrasos. Sorokin recomendou que “não se dê muita importância a essas notícias”. Segundo ele, tudo não passou de uma “consulta formal” por parte do governo e não há, portanto, motivo para preocupação.

O orçamento do Mundial gira em torno de R$ 36 bilhões. Entre possíveis atrasos e aumentos de preço, o presidente do COL tenta equilibrar a equação e levá-la a zero:

— O preço não vai aumentar, e até os primeiros dias de março, todos os estádios estarão prontos. A exceção é o estádio de Samara, onde houve dificuldades objetivas já previstas no projeto. A área da construção é geograficamente complicada. Mesmo assim, não tenho dúvidas que esse estádio será entregue até o início de abril, a tempo de realizar os jogos testes antes da Copa.

O terceiro sorriso de Sorokin desponta quando é lembrado que mesmo o Brasil, criticado por atrasos em obras da Copa, já havia inaugurado sete de seus 12 estádios a esta altura da preparação, contra os cinco da Rússia. No caso brasileiro, no entanto, houve relatos de que alguns dos estádios tidos como “prontos” e disponibilizados à Fifa ainda precisaram de retoques finais a dias do Mundial.

— Cada país tem suas particularidades. O mais importante é que todos os estádios estarão prontos antes da Copa, e não depois. Por isso, não vale a pena comparar — responde Sorokin, flutuando entre polido e enigmático.

Com aspecto jovial do alto de seus 45 anos, Sorokin não aparenta fazer questão de ser o rosto da organização da Copa. O protagonismo ainda é assimilado por alguém mais acostumado à coordenação de aspectos técnicos. Demonstrando leve susto, Sorokin só mostrou pressa na entrevista quando pediu para interrompê-la, depois de 40 minutos, porque havia acabado de chegar ao comitê um dos muitos vice-primeiros-ministros da Rússia. A visita naquela tarde era de Arkady Dvorkovich, conhecido por sua atuação em áreas como agricultura e transporte — e por ser ele mesmo um fã de futebol.

Outro vice-primeiro-ministro próximo a Sorokin é o próprio Mutko, a quem substituiu depois do afastamento do Ministério do Esporte, já sob pressão por causa do escândalo de doping no esporte russo. Mutko integra o conselho supervisor do Comitê Organizador, grupo que atua sob a batuta do presidente russo, Vladimir Putin, seu padrinho político. Dvorkovich também foi chamado ao conselho. Sorokin dá mais atenção ao trabalho prático e minimiza seu papel atual de presidente do LOC.

— Estamos numa fase operacional, na qual os cargos não fazem mais tanto sentido. Mutko segue no governo, ele é o chefe de toda a preparação. Eu tratava de infraestrutura e questões operacionais, e é isso o que continuo fazendo — explica.

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