
Não se costuma dizer que o Congresso reflete o Brasil, é a cara do Brasil? Daí então, sociológica e eticamente, em grande parte, o Brasil é o baixo clero, a cara do Brasil é a do baixo clero. Cabe assim, para dar pelo menos um afetado toque de classe, convocar o Jacinto De Thormes (Maneco Muller, aliás, é o seu verdadeiro nome,) para escrever a crônica atual dos notáveis brasileiros. Assim escreveria De Thormes: Le dernier cri (o último grito da moda) é ser nordestino. Para a estação do inverno que já está chegando, não em Manaus, como de resto, espera-se, para os próximos dois anos, o Nordeste como a tendência do último grito da moda. Ser Silva ou Ferreira da Silva (Lula e Maria do Carmo, a senhora de Pernambuco), Cavalcanti - de preferência Severino, não é mesmo, João Cabral de Melo Neto? - e Calheiros e Lira das Alagoas, é o must para os modelos que toda a Imprensa irá referir-se, fotografar, e "filmar" para a televisão. Da semana passada para cá o Nordeste, competindo infelizmente com as mortes brutais no Pará, tomou conta dos jornais, rádios e televisões. Ouvi por uma rádio de cobertura nacional, pelo menos duas entrevistas com sociólogos radiofônicos, tentando explicar para o resto do Brasil o que seriam as elites nordestinas. Tem havido uma nordestinização do Brasil por estes dias. Até um muito interessante artigo sobre a eleição da Câmara dos Deputados foi escrito por um nordestino de Pernambuco, o Francisco Oliveira publicado na Folha de São Paulo quinta-feira passada. Oliveira, que já reside no sul faz muitos anos, se diz no artigo ser "recifense roxo" e já foi afiliado do PT. O título do seu artigo é O paradoxo Severino.. O que tanta nordestinada pode vir a significar? Que avaliação passarão a receber as elites políticas nordestinas? Como ouvirão os ouvidos dos jornalistas de São Paulo, Brasília e Rio os termos e o sotaque do-que-ninguém-esperava atual do presidente da Câmara dos Deputados? Ele já é uma caricatura folclórica do regionalismo, ou ainda vai se tornar durante suas falas contundentes do seu trono? Para mim não é seu jeito de falar; mas suas posições sobre moral, relações sociais e propostas corporativas para a Casa que preside, que vão sinalizar e moldar aquilo que irão passar a dizer dele. Dele, e quem sabe, do Nordeste e de Alagoas em particular. Já houve um outro Presidente da Câmara, este do Ceará, que, assumindo interinamente a Presidência da República, cometeu extravagância que entrou no anedotário achincalhador da política brasileira: (Deputado Paes de Andrade, se não me engano de um município cearense denominado Mombasa, parece).
Pois é. De repente, surpreendentemente, mesmo sem carnaval, esta festa residual, o Nordeste virou le dernier cri. E de maneira lamentável. Mesmo eu não sendo nem vagamente um nordestino (e muito menos recifense roxo - mas que expressão mais vulgar, meu Deus!) espero que passadas as semanas de euforia daquela sessão da aprovação do arcabouço fiscal a Câmara do Deputados (quando todos os congressistas se conduziram de modo vergonhoso) o senso digno e as avaliações civilizadas entrem e se instalem em todas as cabeças. E que essa moda nordestianíssima não pegue e nem vigore por muito tempo. Por que, moda não; mas um modo de vida bom e feliz (como a da Escandinávia) é o que nossa população brasileira carece. Só que isto não vai ser conseguido com um presidente fraco e desorganizado como o Lula da Silva. No seu governo no hay banda ni maestro..
Espaço Crítico
Flávio Lauria possui graduação em Administração pela Universidade Federal do Amazonas, mestrado em Administração Pública também pela UFAM e doutorado pela Universidade de Barcelona na Espanha. Foi Secretário Municipal de Administração, Diretor de Planejamento do Tribunal de Contas do Amazonas, e atualmente é Consultor de Empresas com ênfase em Planejamento Estratégico.
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