Oitavo mês do ano, vigésimo dia, e esta semana, fora os batidos temas da busca de um culpado pelo apagão, e o fica e sai de Prefeitos, as joias podem ser vendidas? Delação de um hacker, pouca coisa restou, então volto a escrever sobre a educação, que sempre estará na crista da onda. O descaso com a educação é a evidência histórica de que o Estado brasileiro funciona como matriz dos piores dramas sociais.
O diagnóstico óbvio de que a ignorância responde por grave injustiça na disputa pelos bens da vida jamais inspirou ações consistentes para erradicá-la. Programas ousados se sucedem no longo caminho da rotação no poder. Mas, do papel, saltam apenas medidas sem o ímpeto das políticas vinculadas à estratégia nacional. Em tempos de crise econômica, algo crônico no Brasil, entre as primeiras vítimas dos ajustes figuram as receitas destinadas aos projetos educacionais.
O Mapa do Analfabetismo no Brasil, informe do Ministério da Educação, volta a mostrar a geografia de uma realidade que é, a um só tempo, alarme e denúncia. Os analfabetos funcionais formam hoje contingente de quatorze milhões de pessoas. Sabem mal assinar o nome ou escrever algum bilhete, mas incapazes de entender o que lêem. Na área rural, muitos são acometidos de graves enfermidades, ou levados à morte, por não compreenderem as advertências contidas em rótulos de pesticidas agrícolas. Analfabetos mergulhados em completa escuridão somam dezesseis milhões. São os que estão reduzidos ao último degrau da condição humana: vegetam no estágio crítico da ignorância.
O estudo do MEC indica que 35% deles já frequentaram escolas, mas não conseguiram alfabetizar-se. A incompetência e os métodos primitivos utilizados não poderiam colher outro resultado. É causa de espanto saber que só em dezenove dos 5.570 municípios as populações têm escolaridade equivalente ao ensino fundamental.
Os indicadores do MEC não sublinham apenas a existência de instrução desqualificada e oferta muito abaixo da demanda. A distribuição dos atingidos pelo modelo excludente reproduz as desigualdades econômicas no tratamento dispensado às diversas regiões. Não é de admirar, assim, que o Norte abrigue 24,3% dos analfabetos, cerca de oito milhões. Até agora as promessas foram em vão.
A omissão e a estreiteza política deram-se às mãos para converter a norma constitucional em letra morta. Emenda posterior à Carta prorrogou o compromisso até 2006. Em onze anos, os avanços foram pífios. Resolver o problema em quatro, é conquista difícil de ser alcançada. Nada, porém, se resolve sem obstinação e ousadia. Não se deve ignorar que tudo é possível, até os milagres. Aliás, houve tempo em que os governantes acreditavam operar milagres. Depois se viu que as obras divinas não passaram de delírios.
Espaço Crítico
Flávio Lauria possui graduação em Administração pela Escola Superior Batista do Amazonas(1982) e especialização em Intensivo de Pós Graduação Em Adm. Pública pela Escola Brasileira de Administração Pública(1993). Atualmente é PROFESSOR da Escola Superior Batista do Amazonas e professor titular da Faculdade Nilton Lins. Tem experiência na área de Administração, com ênfase em Administração de Empresas.
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