O clima de desconfiança nas autoridades e em certas instituições está começando a formar um “efeito dominó”, cujas repercussões atingirão todos os eixos da vida institucional do país. Insegurança, medo e apatia geram atrofia no corpo cívico da Nação. Significa dizer que os cidadãos, apavorados, afastam-se do Estado e dos governantes, aumentando as taxas de desprezo e descrença, que já chegam a atingir índices monumentais.
A desconfiança das pessoas dispara, por sua vez, um processo de desorganização e instabilidade social. E a instabilidade social tem reflexos na estrutura econômica, provocando, ainda, apreciáveis danos ao sistema político. A conturbação social, provocada por ondas de violência, apresenta outros vetores de acirramento como a deterioração dos níveis de vida nas grandes cidades, o desemprego, a queda na qualidade dos serviços públicos, o caos dos transportes urbanos, a descoberta, apuração e denúncia de casos escandalosos de corrupção, de redes de narcotráfico e grupos de extermínio.
Tudo somado forma um imenso caldeirão de cultura nefasta, que funciona como um extenso cordão de isolamento a afastar a sociedade dos chamados poderes constituídos e do sistema formal/normativo. A explicação para o comportamento das massas obedece a fatores psicológicos. O indivíduo age de acordo com quatro tipos naturais de instinto ou impulsos. O primeiro é o impulso combativo, a necessidade de preservar-se, viver bem; daí deriva a tendência do ser humano para lutar contra as intempéries, os adversários, tudo que seja ameaça à vida. Se o Estado não lhe dá garantia de bem-estar, passa a ser execrado; e as autoridades públicas responsáveis por seu comando entram numa espécie de purgatório, só saindo dali quando passam a fazer boas ações. O segundo instinto é o alimentar, a necessidade de garantir o estômago para sobreviver.
Na luta contra a fome, contra a miséria, recorre igualmente ao Estado. Esse instinto deflagra o medo do desemprego, da falta de dinheiro para comprar comida. O terceiro impulso é o sexual, que garante a preservação da espécie, e o quarto é o instinto paternal, responsável pelos valores da solidariedade, do amor à família, do carinho, da amizade, do companheirismo. Uma crise nos dois primeiros sistemas afeta os dois últimos, amortecendo a base espiritual e promovendo a desagregação dos núcleos familiares. Se não se sente protegido, o cidadão acaba voltando-se contra aqueles que, sob a promessa de protegê-los, tomaram seu voto. Esta é a lente que vai fotografar o pleito de 2.026. O resultado será uma fotografia irada. Teremos a eleição da raiva.
Os eleitores, para vingar os governantes e os grandes mistificadores, poderão oferecer respostas fulminantes aos candidatos. Não é de admirar se algum “aventureiro” pegue carona na insatisfação social e passe a conduzir as emoções das massas, induzindo-as a de ir roldão contra os padrões da política, os perfis tradicionais e os acordos interpartidários. Haverá, é claro, a influência da mídia. Que será, porém, relativa. Em algum momento, a mistificação será percebida e o “feitiço” de alguns candidatos acabará se virando contra os “feiticeiros”.
O conceito de civismo também sofrerá. Pois quem se acha cercado por grupos de vândalos e hordas de bárbaros, não tem motivo para plantar raízes sentimentais no chão. As flores telúricas que florescem nos jardins das consciências cívicas acabarão despetaladas. Será o ciclo do endurecimento das emoções. Os cidadãos, sem mais o zelo cívico de outrora ou sem vontade de ser parceiros da paixão e da utopia, darão adeus à boa vontade. No esconderijo do anonimato, as massas, os grupos, os indivíduos darão resposta a todos aqueles que, nos últimos tempos, construíram o maior monumento à bestialidade do país: a distância entre o Estado e a Nação, o corte vertical entre o território físico, abundante de leis descumpridas e desacreditadas, e a Pátria espiritual, santuário sagrado onde vivem filhos aflitos, desesperançosos, sequiosos de justiça e pão, incapazes de sentir a própria dor.
Flávio Lauria
Flávio Lauria possui graduação em Administração pela Universidade Federal do Amazonas, mestrado em Administração Pública também pela UFAM e doutorado pela Universidade de Barcelona na Espanha. Foi Secretário Municipal de Administração, Diretor de Planejamento do Tribunal de Contas do Amazonas, e atualmente é Consultor de Empresas com ênfase em Planejamento Estratégico.
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