Última semana de propaganda eleitoral antes do segundo turno. Não sou dos que trocam de canal ou desligam o aparelho quando se anuncia o programa eleitoral e o respectivo desfile de candidatos, com seus propósitos e ideias. Ao contrário, presto muita atenção, um a um, em busca do que mais corresponda às minhas expectativas, e, por tais vias, o prêmio do meu voto, compulsoriamente digitado em uma das seções do Colégio Ângelo Ramazotti.
A sequência de postulantes não me é desagradável nem monótona, permanentemente animada pelo entusiasmo e postura dos candidatos, suas promessas, convicções e certezas de um trabalho sempre melhor que os outros.
Simultaneamente, vou percebendo que apesar de as figuras muito divergirem no aspecto, na idade, no visual, também no arroubo e no tom, os acenos são de uma insistência imutável, com predominância para a educação, saúde, segurança, emprego, melhoria das condições de vida, barateamento das coisas, coibição das regalias, tudo o que o povo deseja e quer.
Com o tempo vou intimamente questionando os anseios daquela gente, a maioria humilde, a procura de um degrau a mais, uma evidência, um lugar ao sol. E começo a me apiedar de muitos que ali se expõem, desavisados e sonhadores a prometerem o extermínio da pobreza, a moradia para todos, escolas e hospitais gratuitos, uma escalada de benesses inatingíveis e impossíveis em qualquer ponto do mundo. São principiantes de um novo ofício, marinheiros de primeira viagem num esforço de atitudes e eloquências, certos de uma boa apresentação a lhes proporcionar, pelo destaque conseguido, os votos mais que necessários para o êxito infalível.
Assim não acontece com os veteranos de outras pelejas, que ao curso de jornadas anteriores, e campanhas bem mais seguros, poupando-se das veredas duvidosas. Nada mais árduo e desgastante do que uma campanha política. Uma dedicação exclusiva, tensa, e emocionada a exigir o máximo de disciplina e tolerância por parte do interessado, sempre amável e sorridente, sem qualquer tipo de desconfiança ao companheiro. Na hora da derrota a política é a mais perversa das madrastas. Jamais vi, padecimento mais atroz, abalo mais comovente, decepção mais profunda do que um candidato na hora crucial da derrota.
Homens destemidos e corajosos, veteranos de bravas lutas, companheiros enrijecidos, pelos combates e curtidos pelas refregas, desmoronam-se, aparvalhados, como noviços. O ser todo alquebra-se de uma feita. O semblante envelhece em segundos, os olhos se apequenam, lacrimosos, a face é lívida, cor de cera, os lábios tremem afilando-se, a coluna cervical curva-se, baixando a cabeça, a respiração é ofegante, o pulso acelera-se, e ao simples exame objetivo constata-se o intenso sofrimento sob a mais cruel das formas. A boca é seca, a língua amarga, a falta de apetite constante, as palavras se balbuciam com esforço, e ao simples exame objetivo, constata-se um estado físico suscetível de figurar na nomenclatura médica, sob o título de "síndrome do derrotado".
Entidade de evolução passageira, sintomaticamente amainada em dias, semanas, ou mês, tudo refluindo como a maré que volta.
A atual disputa pelo Legislativo é uma rotina de movimentos anteriores, nos moldes da legislação em vigor, com um número maior de candidatos, a mostrar que os valores do cargo são cada vez mais ambicionados e reconhecidos. Candidatos que usam os mesmos chavões assimilados de colegas anteriores, uma vez que não lhes resta outra alternativa, nem têm criatividade para tanto. Assim ouviram, assim fazem e assim repetem. Os padrões são frutos do meio, da cultura que temos, da instrução que praticamos. Nada, pois, a estranhar ou criticar.
De saldo, o envolvimento de muitos postulantes para uma representação que vai proporcionar um expressivo coeficiente de surpreendidos, amargurados e traídos, com mágoas e rancores para sempre.
Flávio Lauria
Flávio Lauria possui graduação em Administração pela Universidade Federal do Amazonas, mestrado em Administração Pública também pela UFAM e doutorado pela Universidade de Barcelona na Espanha. Foi Secretário Municipal de Administração, Diretor de Planejamento do Tribunal de Contas do Amazonas, e atualmente é Consultor de Empresas com ênfase em Planejamento Estratégico.
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