Em algum momento, já tive essa idéia e escrevi sobre este clube que gostaria de fundar. Foi enfatizado quando um antigo, querido e ilustre amigo me liga no final da noite desta terça-feira, e eu sem um tema concreto para escrever esta semana, apesar de inúmeros fatos acontecidos, inclusive a fuga do candidato de direita para os Estados Unidos, fato histórico realmente. Mais ele não queria falar só disso, coisa de mais de quarenta minutos ao telefone. Motivo: relatar-me seu desencanto com fatos e pessoas cujos passos vem acompanhando.
Desde logo, com os estragos que a luta pelo poder causa em certas pessoas. Quase em lágrimas, me disse estar definitivamente decepcionado com a política, na qual, como tristemente recém acaba de se dar conta, tudo é possível.
Como exemplo justificativo de seu desalento, citou os noticiados entendimentos em curso entre partidos de antagônicas ideologias em troca de uma fatia de poder. Referindo-se a pessoas, citou, vários políticos locais e nacionais. Mais o amigo verbalizou: deu ênfase especial à opinião que uma candidatura do PL emitiu em relação da idoneidade do governador eleito no Amazonas.
Opinião segundo a qual nada existe contra a honorabilidade do político, eis que até aqui, por mais que tenha sido atacada nada ficou provado em tal sentido... Evidente que concordei plenamente com tudo o que o amigo dizia, principalmente nas alianças feitas para as eleições de outubro passado, com coligações partidárias cujos reclamos ja há alguns anos partem de diversos setores da sociedade. Apesar das promessas, nem o governo se preocupou em encaminhar uma proposta para o Congresso nem o Congresso teve a ousadia de tomar a dianteira no processo de reformar politicamente o País.
Diante do desencanto do antigo parceiro de jornadas etílicas e procurando evitar que ele continuasse se afogando num atoleiro de pessimismo, sugeri-lhe que se tornasse sócio do clube “Nào se surpreenda”. Explico: referido clube, fundado na mesa de bar ou cafeteria – coisa de intelectuais –, não cobra jóias, nem mensalidades, nem tem estatutos. Seus associados devem apenas assumir este compromisso: não se surpreenderem com nada que aconteça neste mundo.
Cumpre apenas ficarem, se vacinarem contra todo tipo de ocorrência e comportamentos imprevistos, sejam eles quais forem. Assim, ainda quando vierem a topar com a notícia de que Flávio Bolsonaro foi transformado em candidato único de uma coligação de todas as correntes partidárias do Brasil. Ou que Donald Trump entrou para uma Congregação Mariana. Ou que o papa Leão XIV entrou para a Escola de Samba dos Bambas da Orgia, que a Lei de Responsabilidade Fiscal é seguida fielmente inclusive pelos Tribunais, que o governador eleito do Rio promete ser transparente e prender milicianos.
Tratei de consolá-lo com a lembrança de que, em se tratando de jogadas políticas, tudo se pode esperar. Não sei se consegui apaziguar o amigo com a realidade, menos ainda convencê-lo a filiar-se ao clube que serve de título deste texto.
Mas fiz o que pude. Afinal, amigo é para essas coisas.
Flávio Lauria
Flávio Lauria possui graduação em Administração pela Universidade Federal do Amazonas, mestrado em Administração Pública também pela UFAM e doutorado pela Universidade de Barcelona na Espanha. Foi Secretário Municipal de Administração, Diretor de Planejamento do Tribunal de Contas do Amazonas, e atualmente é Consultor de Empresas com ênfase em Planejamento Estratégico.
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