BRASÍLIA - Afastado por uma possível ligação com o ex-deputado Eduardo Cunha, o vice-presidente Corporativo da Caixa, Antônio Carlos Ferreira, diz que foi surpreendido pelo posicionamento do Ministério Público Federal (MPF). Em entrevista ao GLOBO, classificou como uma “piada” a possível proximidade apontada pelos procuradores. Falou que eles interpretaram os pareceres de auditorias interna e independente do banco de forma surpreendentemente contrária do que dizem os laudos e que nunca teria se curvado à pressão do ex-presidente da Câmara.
Ele revela em detalhes como teria sido o “truculento” pedido de Cunha para demitir executivo, ter reunião semanal de prestação de contas e também ter acesso a uma lista com empresas que pegaram empréstimos milionários. Disse que tudo foi negado logo no primeiro encontro e que, por isso, tentaram tirá-lo do cargo por mais de três anos. Para ficar na cadeira, a saída teria sido aceitar o apoio do PRB, mas garante que nenhum pedido “não republicano” teria sido atendido.
Antônio Carlos Ferreira diz que não jogará no lixo 33 anos de carreira sem arranhão ético. Fala que entende ter sido afastado para não prejudicar a imagem da empresa e que dá uma contribuição ao país por ter resistido às pressões políticas. Conta que, de seis em seis meses, havia pressão para tirá-lo do cargo para que pessoas do grupo de Cunha assumissem a função e perpetuassem o que acontecia antes dele na vice-presidência comparativa. Ele ressalta que “não tem nenhuma digital” de crime dentro do seu departamento, que foi blindado e que o escândalo foi causado por políticos que vendiam dificuldade pra entregar facilidade.
Na última terça-feira, A crise vinha desde dezembro, quando o Ministério Público Federal (MPF) recomendou o afastamento de todos os 12 vice-presidentes do banco com base em informações disponíveis de quatro operações da Polícia Federal que envolvem diretamente a Caixa: Cui Bono, Sépsis, A Origem e Patmos. Na época, o governo ignorou o pedido da Procuradoria.
Ferreira já tinha sido citado na delação de Joesley Batista, dono da JBS, por ter pedido propina de R$ 6 milhões para ser repassada ao então ministro Marcos Pereira. O MP cita o fato de o próprio Ferreira ter contado que o ex-deputado Eduardo Cunha colocou condições para mantê-lo no cargo, como fornecer listas de operações acima de R$ 50 milhões para ajudar a “rentabilizar seu mandato”.
A única pressão política que teve foi logo quando eu cheguei em 2014. Com poucos dias no cargo, o deputado Eduardo Cunha, líder do PMDB à época, tentou fazer contato comigo até que conseguiu. Marquei uma agenda na liderança do PMDB na Câmara dos Deputados. Ele disse que se eu estava ali é porque ele concordou com a minha nomeação. Eu não sou indicação do PMDB. Fiquei surpreso tanto na forma extremamente grosseira, quanto do conteúdo não republicano e antiético. Ele disse que precisava de três coisas minhas. Eu não o conhecia e ele chega com essas demandas truculentas levianas. Primeiro: eu precisaria exonerar o diretor da área corporativa. Eu falei que não. Não sei por que pedir exoneração de um profissional de carreira competente ético com histórico de resultados fantásticos. Ele falou que não era aquilo que ele esperava que ele queria nomear o Giovanni (técnico que seria aliado do ex-vice-presidente da Caixa e ex-ministro Geddel Vieira Lima).
‘Se o senhor quiser fazer, tem que procurar o presente da Caixa ou ministro da Fazenda, que são as autoridades para tomar essa decisão’. Não tinha motivo algum para exonerá-lo. Naquele momento, ele começou a ficar irritado e começou a falar de forma muito dura e agressiva. Ele queria também que eu fosse na casa dele toda a terça-feira prestar contas. E disse que precisava da relação das operações que estava sobre a minha mesa. Eu disse: ‘deputado, as três demandas que o senhor me fez são impossíveis de atender’. A coisa mais sagrada que tem é o sigilo bancário. Eu não vou jogar 33 anos de carreira dentro da empresa fora. Hoje, não tem nenhum arranhão na minha carreira na parte funcional e ética. Eu não vou jogar minha carreira no lixo.
Ele ficou totalmente alterado. Ele falou que ia me tirar no primeiro turno das eleições de 2014. Depois, me falou que ia me tirar no segundo turno e depois disse: por que você não me entrega (o cargo) porque eu vou sugerir o nome de alguém do meu grupo? Eu disse ‘o senhor fique à vontade. O mesmo avião que me trouxe do Espírito Santo pode me levar de volta, mas eu não vou fazer qualquer demanda dessas três’. Ele foi agressivo e pedi a ele que respeitasse a minha posição.
Chegando na Caixa, procurei o Presidente Jorge Hereda e disse: ‘presidente, eu gostaria de voltar para o Espírito Santo. Imaginava que haveria a pressão política em Brasília, mas mas não com essa envergadura de caráter de valores e ética. Não estou preparado para isso. Não quero isso pra minha vida’. Eu não queria viver naquele clima e não queria o ambiente insalubre que fui recebido em Brasília. O presidente Jorge Hereda me pediu que eu ficasse pelo menos mais um tempo e me deu todo apoio. Na mesma hora, me perguntou se eu topava conversar com o (então) vice-presidente Michel Temer. Eu disse sim, desde que tenha ambiência dentro do que eu estou te falando. Ele disse vai lá, o vice-presidente é uma pessoa institucional.
Ele me recebeu com muito respeito e uma institucionalmente importante e disse ‘Antonio Carlos, volte para trabalhar que não vai acontecer nada. O deputado é controverso e polêmico mas não vai acontecer nada. Siga em frente nessa linha de enfrentamento seja com ele ou com ou com qualquer outro parlamentar que nada vai acontecer’. E, verdadeiramente, não aconteceu. De seis em seis meses, havia pressão para me tirar do cargo para que pessoas do grupo (de Cunha) assumissem essa função e talvez pudesse perpetuar aquilo que acontecia até a minha chegada na minha vice-presidência comparativa. Desde que assumi, não tem nenhuma digital dentro da vice-presidência corporativo da caixa. Nós blindamos. Lá, tem processo, governança, comitê de crédito... Auditoria fez uma limpeza não encontrou nada. O que acontecia eram coisas que fugiam ao controle qualquer um que vive na moralidade como eu e os outros 95 mil empregados da Caixa: são pessoas que vendiam dificuldade pra entregar facilidade.
Eu nunca gostei de me arrepender. Hoje, estou dando uma contribuição pela minha postura. Eu não me curvei à pressão do deputado que era líder do PMDB e que já tinha indicativos que seria presidente da Câmara. Ele chegou a dizer o seguinte: 'você se una a Fábio Cleto porque nós vamos ampliar o número de vice-presidente da Caixa e você tem a possibilidade de ser presidente da Caixa no lugar do Jorge Hereda no ano que vem. Eu não me curvei a esse pessoal. Eu não me curvei às práticas não republicanas que tinham dentro da vice-presidência corporativa. Tudo isso que estou te falando está dentro do relatório do Pinheiro Neto (escritório de advocacia, contratado pela Caixa para auditoria interna). O que me surpreendeu é o Ministério Público de Brasília ler _ as palavras são muito claras _ que eu faço parte do grupo do Eduardo Cunha. E que eu fui prestar contas para o Eduardo Cunha. Ao contrário. Ele que me falou isso na primeira agenda e na primeira agenda já não teve mais segunda agenda. Houve um rompimento. E, por diversas vezes, esse grupo liderado por ele tentou me tirar. Quando ele assumiu a presidência da Câmara, a pressão foi para cima do governo.
Eu tive uma agenda no primeiro semestre de 2015, na Casa Civil, com ministro Aloizio Mercadante. Conheci ele nesse dia. Depois da agenda, ele me disse: 'o governo precisava de executivos e profissionais iguais a você, que tem coragem de fazer enfrentamento dentro da ética. Não está fácil de te manter, mas vamos trabalhar para te manter porque a presidenta Dilma quer te manter porque ela já está sabendo do seu enfrentamento com deputado. Ele é presidente da Câmara e não está fácil, mas vamos buscar um caminho'. Eu falei: 'eu te agradeço muito, mas estou disposto a voltar para Espírito Santo'. Eu tive uma crise de pressão no fim de 2014 por causa disso e fiquei dois meses afastado. Quando voltei, voltei decidido a voltar para o Espírito Santo. A (então nova) presidente Miriam Benchior já tinha assumido e disse: 'espere só um pouquinho porque eu quero nomear alguém para o seu lugar e se você sair, vai todo mundo querer esse lugar e eu quero botar alguém lá que tem a sua característica de continuar blindando a vice-presidência'. Foi o que eu fiz.
Tive uma segunda agenda com ele (Mercadante). Ele disse: 'estamos procurando apoio político. Eu sei que você é um profissional de carreira técnico nós precisamos de profissionais assim que tem coragem de enfrentar mas que tem apoio político'. E foi aí que entrou o PRB nessa história: dar condições políticas, mas sem nenhuma exigência. Ele disse: 'nós já sabemos de tudo e nós queremos exatamente dessa forma, quando o partido pedir alguma coisa você, você liga pra gente, além de negar, e diz pra a gente tomar decisões. Eu falei que não teria nenhuma chance de ser diferente.
Quando o presidente Michel Temer assumiu, veio a outra pressão pra me tirar pilotada pelo Geddel (Vieira Lima), que entrou no circuito, e a senadora Rose de Freitas. O PRB já tinha me avisado que estaria fora e eu disse tranquilamente que voltaria para Espírito Santo de cabeça erguida. Agora, esse novo momento, essa nova onda, que muito maior. Eu estou consciente, eu entendo que quando existe uma denúncia que possa vir a expor a empresa, eu acho que o profissional tem de ser afastado. Mas talvez o Ministério Público de Brasília não analisou detalhadamente aquilo que está na peça do Pinheiro Neto. Dizer que eu sou do grupo do Eduardo Cunha é uma piada. Tem testemunhas e provas de todos os lados. Como houve essa decisão, eu respeito sua decisão. Nessa caminhada já tenho provas, documentos, testemunhas, ou seja, um arquivo bem robusto para levar para o Conselho de Administração. Eu tenho muita humildade, mas também tem muita clareza de que quando analisar isso com olhar técnico e olhar reto que todos têm, eu não tenho dúvida que autorizaria a minha recondução.
Eu até tive uma segunda agenda de esclarecimento com o Pinheiro Neto na semana retrasada porque tem fatos que foram informados pelo Ministério Público de Brasília que não condizem com aquilo que eu disse. Esse foi um ponto importante. Eu disse que eu trabalhava com quatro pessoas e das quatro, três foram trabalhar com o Geddel na secretaria de governo. A análise de que essas pessoas teriam vazado informações, eu não posso fazer.
Foram esclarecimentos. Uma pergunta que fizeram foi em relação a minha ida à JBS o contingenciamento do crédito. O presidente da Caixa me pediu que eu fosse à JBS explicar sobre o contingenciamento do crédito estava em curso da caixa. Já tinha sido aprovado primeiro plano plano de contingência e estávamos indo para o segundo em função de regras de Basiléia que a Caixa deveria se enquadrar. E os grandes grupos empresariais que tinham grande crédito como Eletrobrás, Petrobras e J&F deveriam estancar as contratações de crédito na Caixa para caixa chegar no patamar de 10% do patrimônio da referência, o que eu já tinha feito em duas ocasiões. Atendi o pedido do presidente para voltar ao grupo J&F foi quando eu falei pra ele que eu já tinha explicado isso detalhadamente e ele falou eu gostaria que você voltasse lá. Voltei e expliquei tecnicamente. O presidente atuou porque alguém fez uma demanda ele para que eu fosse lá eu expliquei que eu ia lá, mas era terceira vez.
Em relação ao deputado Rocha Loures, quando fez um contrato com a Caixa, o presidente pediu que eu lhe atendesse. Eu o atendi pelo telefone. Eu não o conheço pessoalmente. Ele me fez uma solicitação que eu atendesse um empresário como qualquer com qualquer outro. Passamos todas as condições para que o empresário pleiteasse uma operação na Caixa, o que nem foi feito porque ele mesmo não apresentava condições técnicas e econômicas para aprovação do crédito. O presidente não me pediu nada de mais e nada de errado. Isso eu esclareci também.
A peça principal do Pinheiro Neto trata do meu enfrentamento com Eduardo Cunha. Só que o Ministério Público de Brasília coloca de forma diferente como se fizesse parte do grupo deles. Está claro na peça do Pinheiro Neto e está muito claro nas peças internas da Caixa. Estranhamente e surpreendentemente sai no jornal totalmente ao contrário: que eu tinha reuniões com Eduardo Cunha e que ele pediu lista. Ele me pediu, mas foi negado. E nunca mais tive contato com esse cidadão. Ao invés deles apoiarem essa decisão e esse enfrentamento, eles me afastam. Por que? Porque foi uma interpretação equivocada. Totalmente equivocada. Estou preparado, meu advogado está se preparando. Já estou com toda essa documentação. Eu não imaginava que esse momento fosse chegar, mas faz parte. Estou contribuindo para passar uma imagem para o mercado e para a população de que a Caixa é uma empresa séria, na empresa idônea e que alguns elementos que frequentaram o ambiente da Caixa — e que não fazem mais parte do quadro da empresa — é que denegriram nossa imagem. Não tenho dúvida que esse momento vai passar e que tudo será esclarecido com responsabilidade com provas e com documentos para poder ser reconduzido. É claro que a Caixa é uma empresa grande e muito dinâmica. Um dia vou ter que sair de lá, mas não gostaria que fosse desse jeito. Estou contribuindo exatamente do jeito que o país quer, que o Ministério Público quer, que o Supremo Tribunal Federal quer, que a empresa quer. Eu contribui para isso. Então me surpreendi com essa decisão. Mas já estou com tudo pronto para apresentar ao Conselho de administração para análise.

