RIO - Para sair de vez da crise, a economia brasileira terá de vencer uma série de obstáculos, a começar pelas incertezas causadas pela turbulência política. Mas o país também contará com fatores que podem ajudar no processo de retomada, como o efeito do ciclo de corte de juros — iniciado em outubro e que deve começar a fazer efeito na economia a partir do segundo semestre — e a influência da agropecuária, que deve ser o destaque de 2017. Entre riscos e oportunidades, as projeções para o crescimento da economia chegam a 0,7% para este ano e a mais de 2% para 2018.
O economista Rodolfo Margato destaca o impacto que o agronegócio deve ter no PIB deste ano. Embora a repetição do resultado recorde do primeiro trimestre não esteja no radar, o setor ainda influenciará positivamente os números do ano.
— Para os próximos trimestres, ainda haverá contribuição positiva. Projetamos uma alta de 7,5% para o PIB agropecuário — diz Margato.
O economista também vê oportunidades com base nos sinais, ainda tímidos, de que o mercado de trabalho começou a parar de piorar. Dados de abril divulgados esta semana pelo IBGE mostram que a taxa de desemprego cresceu menos, para 13,6%, e que a renda do trabalhador ficou estável em comparação a 2016. A inflação mais comportada também ajuda a recuperar o poder de compra. Isso poderia dar fôlego ao consumo das famílias, que completou o nono trimestre de queda.
— Vemos o desemprego com sinais tímidos, mas que dão algum alento, principalmente quando olhamos os salários reais (descontada a inflação). Não dá para falar em melhora do mercado de trabalho, mas conseguimos falar em estabilização. No segundo semestre, com a queda contínua da inflação e o avanço dos salários reais, é claro que essa melhora vai ser transmitida para o mercado de crédito, e poderá ser observada uma recuperação cíclica do mercado doméstico, ainda neste ano — afirma Margato.
Thais Zara, economista-chefe da Rosenberg Associados, prefere não elencar a melhora do mercado de trabalho como fator que pode ajudar no crescimento econômico, mas destaca que o processo de redução de juros pode ajudar a reativar a economia. Desde outubro, o Banco Central já cortou a taxa básica de juros, a Selic, em quatro pontos percentuais. A mais recente redução foi anunciada pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) na quarta-feira, quando a taxa foi reduzida em um ponto, para 10,25% ao ano.
— Ao longo do ano, começa a se refletir a melhora do crédito, por causa da política monetária. Ajudaria um pouco a retomada do consumo. A perspectiva do mercado de trabalho também é um pouco melhor. Tudo de uma forma muito gradual, muito lenta — destaca Thais.
Apesar de o BC ter sinalizado cortes menores de juros daqui para frente, a política de redução da Selic é de extrema importância para a retomada mais forte da atividade econômica brasileira, afirma o economista Daniel Silva, do Modal Asset.
— Não quero dizer que reduzir a taxa de juros tirará o país da recessão, porém, a manutenção da política monetária atual, aliada ao arrefecimento da inflação, pode ser um dos motores para o crescimento da economia — destaca.
Alessandra Ribeiro, da Tendências Consultoria, também destaca os aspectos positivos do corte de juros.
— Já percebemos um novo fôlego no crédito para pessoas físicas, e isso é um sintoma de que o consumo das famílias pode melhorar ao longo do ano. Isso é essencial para que tenhamos um PIB mais descolado de commodities — avalia.
‘solução rápida da crise política seria melhor’
Além disso, destaca Alessandra, parte dos saques das contas inativas do FGTS deve ser injetada no comércio:
— Pesquisas mostram que os brasileiros usarão parte desse dinheiro para o consumo e, com esse incentivo, o comércio deve apresentar dados melhores no segundo semestre.
Mas Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, ressalta que os rumos da economia vão depender da crise política.
— A solução rápida da crise política seria a melhor coisa neste momento, além de buscar uma solução razoável e factível para a reforma da Previdência, que, a essa altura, tem chance muito pequena de ser aprovada — diz Vale.



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