NOVA YORK - Os riscos envolvidos no hábito de andar enquanto escreve algo no celular têm feito algumas cidades americanas adotarem medidas contra a prática. Você pode até ler e digitar bem, mas seu cérebro, já ocupado, não presta atenção suficiente no que acontece com seus pés. O perigo é tão grande que Stamford, em Connecticut, pode se tornar a segunda cidade dos EUA, neste ano, a combater o problema com multas.
No mês passado Honolulu, no Havaí, adotou uma norma para proibir os pedestres de usarem smartphones enquanto atravessam as ruas.
— O problema é que é perigoso andar na rua sem prestar atenção — disse o prefeito de Stamford, David Martin.
A questão parece simples e há pesquisas que mostram que escrever mensagens de texto pode dar lugar ao que se chama de caminhar distraído.
John Zelinsky, membro do Conselho de Representantes de Stamford, disse estar confiante de que a proposta de proibição de usar o celular ao atravessar a rua será adotada e que, uma vez que os cidadãos que enviam mensagens de texto enquanto caminham virem os policiais emitirem intimações — atualmente a ideia é aplicar multa de US$ 30 por violação — “eles pensarão duas vezes”.
A maior parte dos estados norte-americanos já proibiu o envio de mensagens de texto por motoristas. Mas não existe um apoio unânime para as multas a pedestres como tentativa de melhorar a segurança.
O conselho municipal de Honolulu ouviu moradores, que deram depoimentos sobre os obstáculos para a aplicação da medida e o impacto sobre os turistas e reclamaram que a medida ia longe demais. Uma pessoa fez o seguinte comentário por escrito: “Por que o governo deve determinar para onde eu olho?”
Em Honolulu, a regra valerá a partir de outubro. Lá, os valores das multas começam em US$ 15, mas podem chegar a US$ 99.
Alguns céticos questionam se as leis sobre caminhadas distraídas não seriam injustas, ou até mesmo contraproducentes.
— Claro, as pessoas podem entrar em uma situação de risco, mas isso implica que os pedestres são frequentemente culpados — afirmou Jonathan Matus, diretor executivo da Zendrive, uma empresa que usa sensores de smartphones para monitorar o comportamento dos motoristas. — Eu acho que uma legislação sobre a distração dos pedestres poderia dar aos motoristas agressivos um bode expiatório para culpar as vítimas mortais nas ruas, e esse aspecto não me entusiasma.
Especialistas em segurança destacam os números: as mortes de pedestres nos EUA vêm aumentando, somando 5.376 em 2015 e quase 6.000 no ano passado, maior total em duas décadas e uma alta de 22% em relação a 2014, segundo dados compilados pela Associação de Diretores para a Segurança Rodoviária (GHSA, na sigla em inglês) para relatório recente. O total de 2016 é uma projeção baseada em números do primeiro semestre daquele ano.
Não há estatísticas que mostrem se as mensagens de texto influenciaram algum desses acidentes, mas “quando você mantém registros durante 40 anos e vê dois anos consecutivos de aumento em relação ao ano anterior, isso indica que houve um divisor de águas”, disse Richard Retting, ex-comissário de segurança no trânsito do Departamento de Transportes da cidade de Nova York, que trabalhou no relatório:
— Eu acho que há alguma relação com o aumento do uso de celulares.

