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Ex-jogadores de futebol trocam o campo pelo mercado financeiro

Por Folha de São Paulo / Portal do Holanda

23/01/2022 12h32 — em
Economia



SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - No apagar das luzes de 2021, o movimento de clubes tradicionais de futebol como Cruzeiro e Botafogo caminhando para se tornarem empresas evidenciou o potencial ainda a ser explorado na intersecção entre os gramados e o mercado financeiro.

Além de investidores que passaram a entrar em campo com dinheiro no bolso para administrar agremiações do futebol brasileiro, um caminho inverso também tem sido observado: jogadores que, após pendurarem as chuteiras, passaram a atuar como assessores em escritórios de investimento.

Em dezembro do ano passado, Dudu Cearense, que jogou pela seleção brasileira e por times como Atlético-MG, Botafogo e CSKA Moscou da Rússia, obteve o certificado CEA (Certificação Anbima de Especialistas em Investimento).

"Sei das dores que os atletas sofrem no dia a dia, a pressão por resultados, e meu objetivo é abrir os olhos desses atletas para quais são as principais alternativas disponíveis no mercado, para que eles tenham algum nível de conhecimento, até para não se deixarem levar por cantos da sereia que volta e meia surgem no meio do caminho", diz Dudu Cearense, sócio fundador do escritório de agentes autônomos AFS (Advance Financial Service) Capital, vinculado ao BTG Pactual.

Após reprovar nas três primeiras tentativas de conseguir o certificado da associação de mercado, o ex-jogador conseguiu a aprovação na quarta vez em que prestou a prova.

Segundo ele, o percurso trilhado até aqui reflete bem características importantes que trouxe de dentro dos campos para sua atuação hoje como assessor, como o profissionalismo e a persistência para não desistir ao primeiro contratempo.

Entre as melhores oportunidades no radar para 2022 no mercado financeiro, Dudu Cearense aponta alternativas na renda fixa pública, em especial no caso dos papéis indexados à inflação, de modo a proteger o patrimônio da alta dos preços que ainda pode persistir por mais algum tempo.

Sob uma ótica de mais longo prazo, contudo, o achatamento no preço das ações frente à atual atratividade na renda fixa pode representar um investimento na Bolsa de retorno polpudo mais à frente, para aqueles com capacidade financeira para manter o dinheiro aplicado, aponta o especialista da AFS Capital.

Fundos de investimento globais, que permitem ao investidor ter um pedaço da carteira dolarizada, praticamente imunes aos contratempos do Brasil, também são citados entre as principais opções no leque que costuma apresentar aos clientes.

"Vamos ter uma alta de juros nos Estados Unidos em 2022 que trará implicações para diversos ativos em escala global, e ter uma diversificação geográfica pode ajudar a proteger a carteira", diz Dudu Cearense.

Ele acrescenta ainda ter a intenção de incentivar a formação de outros atletas que encerraram sua carreira esportiva, seja no futebol ou em outras modalidades, de modo a formar uma equipe preparada para assessorar financeiramente profissionais do esporte ainda em atividade.

Um dos pioneiros na área, Willian Machado, que ficou marcado pelos anos em que exerceu a braçadeira de capitão do Corinthians no final dos anos 2010, se tornou em 2019 sócio da Messem Investimentos, escritório de agentes autônomos vinculado à XP.

Ele conta que, tendo atuado por algumas equipes de menor expressão antes de se destacar em times populares do país, muitas vezes chegou a questionar se conseguiria manter-se com a carreira como profissional do futebol por muito tempo. "Minha trajetória no esporte foi parecida com a Bolsa brasileira, cheia de altos e baixos", brinca.

Por conta disso, ainda quando estava fazendo a transição das categorias de base para o profissional no time mineiro Sete de Setembro, obteve uma bolsa de estudos junto à Agap-MG (Associação de Garantia ao Atleta Profissional) e, seguindo o interesse por matemática que já vinha desde a juventude, se formou em Ciências Contábeis pela PUC-MG.

Fato é que a atividade futebolística acabou se mostrando das mais vitoriosas para William "Capita", como o ex-jogador ficou conhecido, tendo se notabilizado em passagem vitoriosa pelo Grêmio, e, principalmente, como um dos líderes de um Corinthians que conquistou títulos importantes, com figuras no elenco do quilate de Ronaldo Fenômeno e Roberto Carlos.

Após levantar os canecos dentro de campo e com o final da carreira se aproximando, a formação acadêmica e o interesse pelos números voltaram a falar mais alto, o que o levou a seguir pela trajetória na assessoria de investimento, após convite feito por sócios da Messem.

"A sociedade está mais interessada e preocupada com seus investimentos em comparação com alguns anos atrás, a questão da educação financeira está hoje bem mais difundida, e as pessoas só têm a ganhar com mais conhecimento nessa área", diz o ex-capitão corintiano, que tem notado um interesse crescente dos clientes, atletas ou não, pelas oportunidades na renda fixa, na esteira do aumento na taxa básica de juros, a Selic.

William conta que, em dezembro passado, chegou a lançar, em parceria com a escola de finanças FK Partners, um curso online destinado a atletas profissionais em atividade ou já aposentados, bem como aos familiares e pessoas próximas, que tem como objetivo servir como um guia em que ele apresenta os conceitos básicos acerca do mercado financeiro.

"Conforme a sociedade de forma geral passa a caminhar em uma direção, é difícil que os atletas não a sigam, ainda que às vezes tardiamente. E isso vem acontecendo em relação aos investimentos, o que é bastante importante, porque muitos atletas servem de espelho para os mais jovens", afirma.

William diz ainda enxergar a iniciativa de clubes de futebol se tornarem empresas por meio das SAF (Sociedade Anônima do Futebol) como um meio, mas não um fim, dentro de um movimento que pode levar a uma maior profissionalização do esporte no país.

"Conheci o Ronaldo ainda quando fomos convocados para a seleção brasileira sub-17, e atuamos alguns anos juntos pelo Corinthians. Sei que ele sempre busca estar assessorado por pessoas muito capacitadas para auxiliá-lo em temas que não domina completamente. E se ele fez esse movimento, é porque tem a convicção de que a lei das SAF será respeitada", afirma o "Capita", sobre a investida do Fenômeno no Cruzeiro.


O Portal do Holanda foi fundado em 14 de novembro de 2005. Primeiramente com uma coluna, que levou o nome de seu fundador, o jornalista Raimundo de Holanda. Depois passou para Blog do Holanda e por último Portal do Holanda. Foi um dos primeiros sítios de internet no Estado do Amazonas. É auditado pelo IVC e ComScore.

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