RIO — Após dez dias de paralisação no setor de transporte de cargas, o país está, aos poucos, voltando à normalidade. Caminhões-tanque já chegam aos postos de combustíveis e centrais de abastecimento já recebem seus carregamentos. Entretanto, alguns setores ainda sofrem os reflexos da greve. Pousadas e hotéis da Região dos Lagos e da Região Serrana do Rio, por exemplo, tiveram uma taxa de ocupação abaixo das expectativas para o feriado prolongado de Corpus Christi. A falta de combustíveis nos postos e a escassez de alimentos são alguns dos motivos.
A pousada Casa Royal Turquesa, em Búzios, tirou a fruta do café da manhã, em consequência do desabastecimento, situação que deve se normalizar em cinco dias. Outro problema é que a baixa demanda para este feriado prolongado vai gerar um prejuízo de R$ 15 mil, segundo a proprietária do local, Daniele Mazotti.
A hospedagem tem capacidade para acomodar 70 pessoas, mas menos de 10 hóspedes confirmaram a reserva para este fim de semana. Ela explicou que os cancelamentos começaram desde o último final de semana, quando o país já estava em meio à greve de caminhoneiros.
— Em qualquer feriado, a gente tem uma taxa de ocupação de quase 100%. Neste, tivemos menos de 10%. No fim da semana passada, deixamos de ganhar em torno de R$ 5 mil, porque, com a falta de combustível nos postos, oito cancelamentos foram solicitados. Para quem cancelou em cima da hora por causa da situação do país, fixamos uma taxa de R$ 100, quando o normal é o valor de uma diária, que chega até R$ 400 — declarou Daniele.
Na pousada Colonna Galápagos Garden, que fica na praia João Fernandes, também em Búzios, a taxa de ocupação foi menor do que a expectativa para este feriado prolongado, informou a responsável pelo setor de reservas Jandra dos Santos. Com 103 quartos no total, o normal para este período seria uma média de 15 a 20 reservas. Apenas oito, no entanto, foram confirmadas. Isso porque três reservas foram canceladas e outras sete foram reagendadas. O motivo, explicou Jandra, foi o temor do prolongamento da paralisação.
— As pessoas que pediram para cancelar ou adiar a reserva alegavam que não teriam combustível para se deslocar e que tinham medo de que a alimentação não pudesse ser garantida. Tivemos que devolver o valor de três diárias, que custam R$ 380 — afirmou Jandra dos Santos.
Em Arraial do Cabo, a pousada Porto Praia costuma ocupar 95% de sua capacidade em feriadões. Mas o gerente Fernando Rezende calculou que esse número reduziu para 75% neste fim de semana, já que a taxa de desistência chegou a 25%. A hospedagem vai deixar de ganhar cerca de R$ 9 mil. Ele afirmou que, dos quarenta quartos, trinta foram ocupados.
— Normalmente só um apartamento fica disponível. A perda só não vai ser maior porque a maioria das reservas eu remarquei e não precisei devolver o dinheiro. Eu remarquei nove e cancelei uma. Mas gera um prejuízo, porque, mesmo remarcando, os apartamentos vão ficar vazios agora — afirmou.
Na Região Serrana, o setor de hospedagem também foi impactado pelos dez dias de greve dos transportadores de cargas. A Chalé da Montanha vai ficar até semana que vem sem estoque de frutas, ovos e verdura. Sem contar a frustração da demanda. Dos 12 quartos, 11 já haviam sido reservados para o feriado de Corpus Christi quando o movimento estourou. Jean Vieira, dono da pousada, disse que houve cinco cancelamentos.
— Ficamos com uma taxa de ocupação de apenas 40%. Esperávamos ocupar quase 100% da nossa capacidade. Como os nossos pacotes variam de R$ 800 a R$ 1100, teremos um prejuízo de cerca de R$ 6 mil com os cancelamentos. Todos alegaram falta de combustível como motivo da desistência — disse Jean.
O Hotel Fazenda Recanto das Águas de Teresópolis está fechado desde sábado passado, mas o problema não é a baixa procura. O gerente Nelson Mendes explicou que a decisão foi tomada porque o local está desde então sem estoque para garantir a alimentação dos hóspedes. Isso porque os hortifrutis da região não estavam recebendo mercadorias.
O profissional contou que a situação levou ao cancelamento de um evento com reservas para 40 casais (100% da capacidade) que aconteceria no último fim de semana. Os seis funcionários que trabalhariam neste fim de semana foram dispensados por quatro dias, porque os veículos que os transportam ainda estão sem combustível.
— As pessoas estão me ligando para reservar, mas, com essa situação, estou tendo que negar. Para semana passada, 40 hospedagens estavam reservadas. Isso é 100%. Cada pacote custava R$ 970. Mas tivemos que cancelar, porque o hortifruti que abastece a gente está sem mercadoria. Neste fim de semana, 35 apartamentos estavam reservados. Eu consegui remanejar 34 e devolvi o dinheiro de uma reserva. Como cada um delas estava custando R$ 799, tivemos uma perda em torno de R$ 25 mil — explicou.
Em nota, a Associação de Hotéis do Estado do Rio (ABIH-RJ) informou que o interior do estado sentiu os impactos da greve de caminhoneiros. De acordo com a entidade, a média de ocupação dos destinos turísticos do interior fluminense está em 69,84%. No ano passado, o índice fechou em 74,45%. Na capital, taxa está em 47%, a mesma do ano passado.
Para o presidente ABIH-RJ, Alfredo Lopes, “a paralisação dos caminhoneiros impactou naturalmente o turismo, assim como nos demais setores. Hoje, a ocupação dos hotéis chega a ser até 70% dependente do mercado corporativo, que movimenta toda uma rede de fornecedores, impactados por este cenário".
Segundo Alfredo, o turismo de lazer também sofre: "Para se ter uma ideia, atualmente 63% de quem se hospeda na cidade é proveniente do mercado nacional, com os vizinhos São Paulo e Minas na liderança, grande parte deles viajando de carro. Num primeiro momento, o impacto maior é na operação do dia a dia, mas, se a situação persistisse, poderíamos ter impacto na maior ocupação. Neste feriado, a capital não foi imediatamente afetada, mas o interior sentiu queda na procura".
*Estagiário sob supervisão de Danielle Nogueira

