Por Howard Schneider
WASHINGTON, 8 Abr (Reuters) - As autoridades do Federal Reserve sabiam, na reunião de março, que a guerra entre os EUA e o Irã aumentaria a inflação no ano, mas a ata do encontro a ser divulgada na tarde desta quarta-feira pode trazer ainda mais detalhes sobre os riscos que o banco central dos EUA vê surgirem do conflito.
Quando o Fed se reuniu em 17 e 18 de março, o choque global do petróleo já estava em sua terceira semana, com os preços de referência do petróleo subindo de cerca de US$70 para US$100 por barril, e praticamente todos os formuladores de política monetária incluíram uma inflação mais alta em 2026 nas projeções econômicas atualizadas divulgadas após a reunião.
O petróleo voltou a ficar abaixo de US$100 por barril no início desta quarta-feira, depois que Trump anunciou um cessar-fogo de duas semanas para permitir negociações que abram caminho para a paz. O presidente do Fed, Jerome Powell, disse que vários cenários foram incluídos na discussão da reunião de março.
Normalmente, esses cenários fazem parte das apresentações da equipe sobre as perspectivas econômicas e podem ser detalhados na ata, fornecendo um possível roteiro de como o Fed está estruturando seus esforços para analisar uma situação imprevisível.
"Falamos um pouco sobre cenários alternativos", disse Powell em sua coletiva de imprensa após a reunião de março. "É muito incerto... Não devemos presumir que será uma coisa ou outra" quando se trata da duração da guerra e seu efeito sobre o crescimento econômico e os preços nos EUA e no mundo.
Em março, o Fed manteve a taxa de juros de política monetária estável na faixa de 3,5% a 3,75% e deu poucos indícios de que uma mudança seria provável em breve, com o que era esperado como uma série de cortes nas taxas este ano evoluindo para o que agora pode ser uma pausa prolongada. Os investidores não preveem nenhuma mudança na taxa de juros do Fed até o final de 2027.
Em janeiro, algumas autoridades do Fed já estavam preocupadas, mesmo antes da guerra, com o fato de que a inflação parecia estar presa em cerca de um ponto percentual acima da meta de 2% do Fed, e indicaram que estavam prontos para sinalizar que talvez fosse necessário aumentar as taxas.
O Fed não alterou a linguagem em sua declaração de política monetária de março para indicar que os aumentos eram uma possibilidade. Mas a ata pode mostrar se a tendência está se movendo mais nessa direção, conforme os banqueiros centrais avaliam se o choque do petróleo representa um risco maior para sua meta de inflação ou para o crescimento e o emprego, caso provoque mudanças nos gastos e uma perda de impulso econômico em geral, à medida que os consumidores lidam com o aumento dos preços da gasolina e outros aumentos de custos impulsionados pela energia.
A ata será divulgada às 15h (horário de Brasília).
Na reunião, os formuladores de política monetária aumentaram suas perspectivas para a inflação de 2026 em cerca de 0,25 ponto percentual, com o índice geral de preços das Despesas de Consumo Pessoal (PCE), a medida usada pelo Fed para definir sua meta de inflação de 2%, devendo encerrar o ano em 2,7%, em comparação com os 2,4% projetados em dezembro. A taxa de inflação, excluindo os preços de alimentos e energia, um número menos volátil que reflete as tendências mais amplas da inflação, também deverá subir, de 2,5% projetados em dezembro para 2,7%.
No entanto, uma nova pesquisa realizada por economistas do Dallas Fed sugere que essa pode ser uma estimativa baixa, dependendo de os preços do petróleo não ultrapassarem US$110 por barril e de a navegação pelo Estreito de Ormuz, que está bloqueada, ser retomada até o final de abril.
Cenários alternativos, com o fechamento do estreito por mais três ou seis meses, levariam o petróleo a US$132 por barril ou US$167, respectivamente, e acrescentariam até 1,47 ponto percentual à inflação dos EUA.
Mais de cinco semanas desde o início do que se esperava ser um breve conflito, as autoridades intensificaram suas preocupações com a inflação, com um aumento surpreendente nas contratações em março, pelo menos por enquanto, aliviando as preocupações com um mercado de trabalho fraco.
"Eu estava otimista de que voltaríamos a essa trajetória de inflação de 2%, mas, caramba, ela está passando do laranja para o vermelho ultimamente", disse o presidente do Fed de Chicago, Austan Goolsbee, esta semana, antes do anúncio do cessar-fogo na terça-feira. "Tínhamos tarifas aumentando os preços, que deveriam desaparecer, meio que não desapareceram, e agora acrescentamos outro choque estagflacionário .... é um momento preocupante."



