RIO - A atividade econômica voltou ao terreno positivo após dois anos consecutivos de retração, com o Produto Interno Bruto (PIB) expandindo-se 1% entre janeiro e março. O presidente Michel Temer, mergulhado numa grave crise política que pode lhe custar o mandato, correu para decretar o fim da recessão (com direito a ponto de exclamação). É mesmo impossível não respirar aliviado após a interrupção de uma sequência de 8 trimestres de severa retração de produção e consumo. Porém, basta uma leitura da apresentação do IBGE para ativar o pé atrás: a verdade é que a economia continua patinando e pode voltar ao terreno negativo.
O PIB robusto do primeiro trimestre é basicamente um reflexo da maior expansão da agricultura em 21 anos. Impulsionada pelas safras espetaculares de soja, milho, arroz e fumo, a atividade no campo teve alta de 13,4% no primeiro trimestre — o suficiente para que um setor que responde por cerca de 5,5% do PIB carregue a economia.
Além disso, com a superssafra, o câmbio mais favorável e o aumento do preço das commodities, as exportações de grãos e também de petróleo, gás, minério e automóveis responderam bem, com alta de 4,8% no primeiro trimestre. Está aqui o motivo (circunscrito a alguns setores) de a indústria ter crescido no período.
Os dois motores da esperada retomada econômica, porém, continuaram no campo negativo, e é isso que preocupa. Os investimentos recuaram pela 12a vez consecutiva. O consumo das famílias — que responde por cerca de 60% do PIB — ainda cai 3,3% em 12 meses.
O IBGE mostrou ainda que Brasil não está comprando máquinas e equipamentos lá fora; não está pegando dinheiro emprestado no banco; não está comprando nas lojas e supermercados; tem uma construção civil a passos lentos. Estamos em 2017, mas nossa economia ainda está rodando no ritmo de 2010. Como estava no fim de 2016.
É possível argumentar que a intensidade da recessão arrefeceu entre janeiro e março — a retração do PIB seria de 2,3% terminara o ano ali, contra 3,6% no fechado de 2016.
Mas, com 14 milhões de desempregados e uma crise política que nubla o futuro e corroi as expectativas, é impossível antecipar uma recuperação sólida da economia nos nove meses seguintes. Também não se espera novo empurrão da agricultura.
O copo da economia continua meio vazio.
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