GUARUJÁ (SP) - O dia ensolarado no Guarujá, litoral norte paulista, não parece ter sido o único motivo de comemoração para os moradores do condomínio Solaris, edifício na praia de Astúrias que se transformou no símbolo da condenação do ex-presidente Lula. Vizinhos ao tríplex que pertenceu à família do petista, imóvel depois retomado e revendido pela construtora OAS, pareciam mais tranquilos com a sentença dada pelo juiz Sergio Moro.
De biquíni e acompanhada de uma sobrinha, a dona de um apartamento logo abaixo ao triplex, a aposentada Maria Francisca Rocha, de 60 anos, dizia que "só quer curtir a folga em paz", após toda a repercussão do caso. Ela lembra da propaganda que foi feita à época do lançamento do empreendimento por conta do vizinho ilustre.
— Os corretores vendiam os apartamentos falando que o presidente ia morar aqui. Isso há mais de sete anos, mas nunca me preocupei com isso. Então, se ele foi condenado, é porque tem prova, e foi justo. Só quero agora curtir minhas folgas em paz — afirma Maria Francisca, enquanto motoristas passam devagar, apontando o prédio. — Já não me incomodo mais — garante ela.
Ao observar curiosos tirando fotos do empreendimento, o aposentado Pedro (preferiu não dar o sobrenome), de 69 anos, endossa o discurso da vizinha e afirma não entender o interesse das pessoas no prédio. Ele mesmo entrega a qualidade do empreendimento: "não é essa coisa toda". Pedro mora em Marília, interior do estado, e é dono de um apartamento no prédio há três anos.
— Esse prédio não tem nada demais. Tem coisa muito melhor. Daria para Lula comprar de forma legal. Eu mesmo prefiro o interior. A praia era até melhor frequentada antes disso tudo. Nem acho que a condenação foi merecida por causa do triplex, mas por tudo que ele fez. Agora acredito que tudo ficará mais tranquilo — diz Pedro.
A condenação de Lula não surtiu grandes efeitos na cidade. Nenhum ato a favor ou contra a condenação de nove anos e seis meses do ex-presidente foi registrado por ali desde que ele se transformou no primeiro ex-presidente condenado na História do país. Nesta quinta-feira, a movimentação na Astúrias era a de um dia normal de sol quente em pleno inverno: algumas barracas, poucos banhistas e um movimento de moradores bem abaixo do que se registra na alta temporada.
O vendedor Diego Cury, 26 anos, no entanto, gosta do movimento que foi provocado pela curiosidade em torno do "triplex do Lula". Ele trabalha região há quatro anos e é vizinho ao prédio. Por conta da "demanda", conta que até já serviu de guia para curiosos que passam pelo local.
— Passam aqui direto, perguntam pelo apartamento do Lula. Eu até brinco dizendo que moro ali também, que o triplex também é meu. Mas as pessoas falam demais. Não tenho certeza se ele realmente comprou apartamento aqui. Pelo menos nunca o vi — afirma Cury, ignorando o testemunho do próprio ex-presidente, que chegou a visitar o edifício acompanhado de Leo Pinheiro, então presidente da OAS.
PROCESSO
A construtora OAS está sendo processada por não pagar as custas do condomínio do triplex atribuído a Lula. Há ainda outro imóvel no mesmo empreendimento nessa situação. Para o advogado do caso, Edson Russo, a empreiteira será condenada ainda esse ano. A dívida ultrapassa os R$ 9 mil.
— Todos os lados já apresentaram sua contestação. O próximo passo do juiz é condenar a OAS a pagar a conta. Estamos aguardando. Acredito que será esse ano — diz Russo.
O processo contra a construtora começou em 2016. Segundo o advogado, a taxa de condomínio das unidades 143 e 164A, número do triplex, está atrasada desde dezembro de 2015.

