O empresário Rodrigo Morgado, conhecido como "contador do PCC", teve a soltura determinada pela Quinta Turma do Tribunal Regional Federal da 3.ª Região (TRF-3). Morgado estava preso desde outubro de 2025, quando foi alvo da operação Narco Bet, da Polícia Federal, por lavagem de dinheiro.
A defesa de Morgado, patrocinada pelo criminalista Felipe Pires de Campos, disse ao Estadão que "a decisão representa um importante reconhecimento das teses apresentadas pela defesa, especialmente quanto à desnecessidade da manutenção da prisão preventiva" (leia o posicionamento completo ao fim do texto).
Morgado é acusado de operar um esquema de lavagem de dinheiro para a facção Primeiro Comando da Capital (PCC) por meio de plataformas de apostas (bets) ilegais. Ele seria um dos operadores-chave do esquema, e também prestaria auxílio direto nas finanças de MC Ryan SP, um dos funkeiros mais conhecidos do País, apontado pelos investigadores como líder da engrenagem criminosa a serviço do tráfico internacional.
Morgado era dono de uma empresa de contabilidade, a Quadri, atua na internet como influenciador e acumula mais de 40 mil seguidores no Instagram. Nas redes sociais, exibia uma vida de luxo, destacava que "veio de baixo" e se apresentava como "louco e sonhador". Morgado disse que começou a carreira como entregador em um escritório de contabilidade. Foi então que teria tomado a decisão de fazer um curso técnico e depois uma graduação na área.
Alvo de duas denúncias do Ministério Público Federal, ele afirma ter saído de motoboy a dono de um patrimônio milionário "pela força de vontade de querer aprender". Morgado teria desenvolvido o tino para os negócios em mentorias de coachs como Caio Carneiro e Pablo Marçal, segundo ele próprio em depoimento à Polícia Federal.
É a segunda vez que Rodrigo Morgado é solto pela Justiça. Ele já havia sido preso na Operação Narco Vela, deflagrada em abril de 2025 e que serviu de base para a Operação Narco Bet. Na ocasião, foi colocado em liberdade por meio de um habeas corpus concedido durante o plantão judicial.
A Polícia Federal aponta que Morgado teria ligações próximas com Marco Aurélio de Souza, o "Lelinho", apontado como chefão do núcleo do PCC que manda cocaína para o exterior em veleiros e lanchas de alta performance.
Os investigadores indicam que a Quadri Contabilidade, empresa de Morgado, aparece na "cadeia de pagamentos" da compra do veleiro "Lobo IV", apreendido em fevereiro de 2023 pela Guarda Costeira americana com três toneladas de cocaína a bordo próximo ao continente africano. O confisco do "Lobo IV" foi o início da grande investigação que culminou na Operação Narco Vela, autorizada pelo juiz Roberto Lemos dos Santos Filho, da 5.ª Vara Criminal Federal de Santos.
Os rendimentos declarados do contador passaram de R$ 295 mil em 2022 para R$ 7,9 milhões em 2023. A variação patrimonial é considerada atípica pelos investigadores. Além disso, ele estaria por trás de centenas de transações suspeitas envolvendo empresas de fachada e casas de apostas.
Laços do contador do PCC com MC Ryan, segundo a PF
O esquema que, segundo a investigação, movimentou R$ 1,6 bilhão por meio de plataformas de apostas ilegais usadas para lavar dinheiro do crime organizado foi alvo da Operação Narco Fluxo, deflagrada posteriormente às investigações da Narco Bet.
No curso da investigação, a PF identificou indícios de que Morgado teria viabilizado repasses em nome de terceiros e prestado serviços de gerenciamento financeiro para atender a diversas demandas de MC Ryan, incluindo ocultação patrimonial e evasão fiscal.
Sorteio de Jeep e demissão de funcionária
Antes das operações contra Morgado serem deflagradas, o contador chamou a atenção na internet com uma polêmica. Uma ex-funcionária da empresa afirmou ter ganhado um Jeep Compass num sorteio promovido por ele, mas o veículo teria sido tomado após ela ser demitida.
Segundo a mulher, o veículo foi anunciado como "valendo mais de R$ 100 mil", mas apresentava diversos problemas mecânicos que lhe geraram gastos de R$ 10 mil para consertos, sem reembolso financeiro. Ela afirma que a empresa impôs condições para que ela mantivesse o prêmio, como bater metas e organizar campanhas por conta própria, e lhe retirou o carro depois, sem autorização por parte dela, enquanto o processo de transferência de nome na documentação estava ocorrendo.
Veja o que diz o criminalista Felipe Pires de Campos, defensor de Rodrigo Morgado
O Tribunal Regional Federal da 3ª Região concedeu ordem de habeas corpus em favor de Rodrigo Morgado, determinando sua colocação em liberdade, mediante o cumprimento de medidas cautelares, na operação denominada NarcoBet.
A decisão representa um importante reconhecimento das teses apresentadas pela defesa, especialmente quanto à desnecessidade da manutenção da prisão preventiva. Rodrigo seguirá respondendo ao processo normalmente, cumprindo rigorosamente todas as determinações impostas pelo Tribunal.
A defesa recebe a decisão com serenidade e respeito às instituições, reiterando sua confiança de que, ao longo da instrução processual, serão devidamente esclarecidos os fatos e demonstrada a posição jurídica sustentada desde o início.



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