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Moda escrava: 29 bolivianos são resgatados em oficinas que produziam roupas para marcas de luxo em MG

Moda escrava: 29 bolivianos são resgatados em oficinas que produziam roupas para marcas de luxo em MG
Bebedouro ficava sobre o vaso sanitário - Foto: Auditoria-fiscal do Trabalho/Secretaria de Inspeção do Trabalho (SIT)

Auditores fiscais do trabalho resgataram 29 imigrantes bolivianos, incluindo um adolescente e uma criança, submetidos a condições análogas à escravidão em oficinas de costura na região metropolitana de Belo Horizonte. As operações, ocorridas em 2025 nos municípios de Betim e Contagem, identificaram que os locais produziam peças para as grifes de luxo Anne Fernandes e Lore. Os trabalhadores foram atraídos do exterior sob falsas promessas de emprego, mas acabaram inseridos em um sistema de servidão por dívida, onde os custos de viagem, moradia e alimentação eram descontados de salários frequentemente inferiores ao mínimo nacional.

A fiscalização detalhou jornadas exaustivas que chegavam a 68 horas semanais, com expedientes que começavam às 6h e avançavam pela madrugada. Os imigrantes recebiam por produção, ganhando valores irrisórios — como R$ 3 por saia ou R$ 13 por vestido — enquanto as peças finais são comercializadas pelas marcas em shoppings de alto padrão por valores que superam R$ 10 mil. Não havia registro em carteira, recolhimento de encargos sociais ou qualquer garantia de direitos trabalhistas básicos, configurando a total precarização da mão de obra.

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Foto: Auditoria-fiscal do Trabalho/Secretaria de Inspeção do Trabalho (SIT)

As condições de alojamento e trabalho foram descritas como degradantes e perigosas. Os profissionais viviam e trabalhavam em ambientes superlotados, sem ventilação, com fiação elétrica exposta e risco iminente de incêndio devido ao acúmulo de tecidos. A precariedade higiênica era extrema: relatórios apontaram banheiros compartilhados insuficientes e cenas de insalubridade aguda, como um bebedouro apoiado sobre um vaso sanitário. O mobiliário improvisado e a falta de equipamentos de segurança completavam o cenário de violação da dignidade humana.

Para os auditores, as marcas exerciam controle direto sobre a produção, definindo prazos e padrões de qualidade, o que caracteriza dependência econômica e responsabilidade sobre a cadeia produtiva. A Lagoa Mundau (detentora da marca Anne Fernandes) negou irregularidades em nota, alegando que a oficina era um fornecedor autônomo e que desconhecia as condições internas do local. A empresa afirmou ainda que rescindiu o contrato após a operação e que possui um histórico de conformidade fiscal e social.

As empresas agora enfrentam sanções administrativas, multas e o pagamento de verbas rescisórias, que em apenas um dos casos ultrapassaram R$ 130 mil. Além das indenizações por danos morais individuais e coletivos, as marcas correm o risco de inclusão na "lista suja" do trabalho escravo do Governo Federal. O caso reforça o alerta das autoridades sobre a terceirização irregular no setor têxtil, onde a busca por redução de custos frequentemente oculta graves violações aos direitos humanos e ao direito internacional.

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