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Lula pediu contribuição ao PT, mas não tratou de valores, diz Emílio Odebrecht

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SÃO PAULO — Em depoimento ao juiz Sergio Moro, o empresário Emílio Odebrecht afirmou que o ex-presidente Lula fez pedidos de contribuições eleitorais da Odebrecht ao PT durante as reuniões que ambos faziam durante o mandato do petista.

Segundo Emílio, “todos os presidentes do Brasil e do exterior” faziam esse tipo de pedido. No entanto, disse que nunca tratou de valores com Lula, que eram definidos por representantes do PT e da Odebrecht.

O presidente Lula que o grupo Odebrecht ajudasse em campanhas eleitorais nesse relacionamento mantido com o então preisdent eLula houve pedido de ajuda financeira

— Houve (pedido de ajuda financeira de Lula), como todos os presidentes daqui do Brasil e do exterior sempre pediam ajuda — disse Emílio.

Segundo presidente da empreiteira, ao contrário da maioria dos outros políticos, que entravam em detalhes, sua relação com Lula era mais cerimoniosa, de amizade.

A partir do pedido, Odebrecht e PT então negociavam os valores da doação. Segundo Emílio, o acordo era firmado entre um representante do partido, indicado por Lula, e outro da empreiteira, indicado por ele. Em geral, disse o empresário, o interlocutor escolhido por Lula era o ex-ministro Antonio Palocci. Do lado da empreiteira, quem negociava os valores eram os presidentes que sucederam Emílio no comando da construtora: inicialmente Pedro Novis e, posteriormente, Marcelo Odebrecht.

A negociação teria levado, na opinião da força-tarefa da Lava-Jato, à criação de uma conta-corrente do PT com a empreiteira. Ao juiz Sergio Moro, Emílio contou que Marcelo Odebrecht levou a ele o resultado final das negociações com o PT, que chegou a um valor de R$ 300 milhões. Segundo Emílio, Marcelo pediu para que levasse o acordo final ao conhecimento de Lula, mas o empresário disse não ter seguido o pedido, porque não tratava de valores com Lula.

— E por que precisava do senhor dar esse sinal verde? — perguntou Moro

— Porque a solicitação de apoio veio do presidente Lula para mim. Eu não queria que ele (Marcelo) entrasse na discussão com o interlocutor achando que não era para atender. Ele não tinha esse direito. Ele tinha o direito de negociar e negociar da melhor forma possível.

Emílio contou ainda que as negociações entre Odebrecht e PT obedeciam a três regras: evitar discrepância com as doações a outros partidos, tentar minimizar os valores e, por fim, esticar os pagamentos com o tempo.

Quesitonado por Moro sobre o motivo para que os pagamentos fossem feitos durante um período de tempo grande, que ia além da época eleitoral, Emílio Odebrecht disse que a intenção era deixar o governo sempre ligado à empreiteira.

— Eu não diria vinculado. Vamos dizer assim, era para amanhã ou depois não dizerem: ‘Olhe, eu já estou livre dele, já me ajudou, vou fazer o que quiser’. Por isso que eu dizia: espiche o possível. Quanto mais você estender os pagamentos, melhor — disse.

O ex-diretor de relações institucionais do Grupo Odebrecht, Alexandrino Alencar, confirmou encontros da cúpula da empresa com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-ministro Antonio Palocci antes e depois da campanha eleitoral de 2002, que levou o PT à Presidência da República, mas negou que nesses encontros tivessem sido discutidos valores de contribuição à campanha.

Em depoimento ao juiz Sergio Moro, Alencar afirmou que, em meados de 2002, Lula e Palocci participaram de um jantar com o empresário Emílio Odebrecht e Pedro Novis, então presidente do grupo, onde a empresa expôs sobre a importância de privatizar o setor petroquímico, mas sem discutir apoio financeiro à campanha.

— Foi um jantar entre o primeiro e segundo turno da eleição de 2002, na casa de Pedro Novis, onde esteve presente o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva (...), conversamos sobre os projetos petroquímicos, a nossa visão de petroquímica para o futuro.

Perguntado se houve pedido de apoio financeiro à campanha, negou:

— Não houve discussão de apoio financeiro à campanha. Não foi comigo.

Alencar reafirmou apenas que Lula e Palocci se sensibilizaram com a visão da empresa de que o setor petroquímico deveria ficar nas mãos da iniciativa privada, e que o apoio do grupo à campanha foi vinculado a essa concordância.

O executivo contou também que, depois da posse de Lula, a Odebrecht também foi ao presidente reclamar da posição do ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Rogério Manso, que vinha dificultando a discussão de um contrato de longo prazo de fornecimento de nafta à Braskem, a petroquímica controlada pela Odebrecht, em sociedade com a Petrobras. Além de Lula, segundo ele, participaram da reunião no Palácio da Alvorada Palocci e o então presidente da estatal José Eduardo Dutra.

— Era uma pessoa que estava obstruindo qualquer iniciativa do contrato de nafta — disse Alencar.

O executivo disse que também procurou o então deputado José Janene, do PP, que presidia a Comissão de Minas e Energia da Câmara dos Deputados e negou que a saída de Manso possa ser atribuída à conversa com o ex-presidente Lula.

Alencar negou ter participado da compra de um prédio para ser sede do Instituto Lula. Disse que, depois que o prédio adquirido pela Odebrecht foi recusado pelo ex-presidente Lula, Marcelo Odebrecht pediu sua ajuda para encontrar um novo imóvel, mas que nenhuma das ofertas agradou e o negócio acabou não vingando.

— Entrei no processo diante da negativa. O próprio Paulo Okamotto comentou comigo e Marcelo me disse para procurar alternativa de imóvel — disse.

O executivo disse que Marcelo Odebrecht tinha uma conta corrente com Palocci, que era administrada por Marcelo Odebrecht e que o empresário não abria como funcionava. Afirmou, porém, que embora acredite que Palocci sabia da existência da conta, não tem certeza disso.

A defesa do ex-presidente Lula afirmou, em nota, que ficou claro nos depoimentos prestados a Moro nesta segunda-feira que o Instituto Lula não recebeu a posse ou a propriedade do imóvel comprado pela Odebrecht na Rua Haberbeck Brandão, em São Paulo. Ressaltou ainda que Emílio Odebrecht esclareceu que sempre teve uma "relação cerimoniosa" com Lula e que jamais tratou de valores com o ex-presidente, acrescentando que as conversas eram institucionais e de interesse do setor.

"Ele confirmou que sua atuação em relação ao Instituto Lula seguiu o mesmo padrão praticado em relação a outros ex-Presidentes, como Fernando Henrique Cardoso, para divulgação dos êxitos dos respectivos governos", afirmou a defesa na nota.

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