RIO — Dois meses depois de notas de R$ 50 e R$ 100 terem aparecido boiando na Praia da Urca, na Zona Sul do Rio, para alegria de mergulhadores e pescadores, ninguém havia aparecido, até o início desta semana, para reivindicar a posse do dinheiro. O inquérito, na 10ª Delegacia de Polícia (DP), em Botafogo, está parado, embora prossiga o mistério.
Os investigadores não descartam que o dinheiro tenha origem ilícita e que seu dono, temendo um flagrante, se livrou dele. Entre as hipóteses levantadas por policiais civis está a de que o montante estivesse em uma lancha ancorada no Iate Clube, em Botafogo, que fica nas proximidades. Outro cenário apontado como possível é que um cofre, hermeticamente fechado, no fundo do mar, acabou se abrindo.
O acontecimento, inusitado, chamou ainda mais atenção e alimentou especulações por ter ocorrido três dias depois da prisão do ex-governador Sérgio Cabral, acusado pela Operação Lava-Jato de chefiar um esquema de corrupção que desviou um “oceano ainda não completamente mapeado” de dinheiro.
Um dos investigadores ressaltou, no entanto, que, a princípio, não há configuração de crime, porque, em tese, o que há até agora é simplesmente a perda de valores por parte de alguém.
— Perder dinheiro não é crime — disse, sob a condição do anonimato.
Identificado o dono do dinheiro, haveria violação da lei se o montante for incompatível com a renda declarada.
A polícia, porém, não faz ideia da quantia recolhida por banhistas, pescadores e mergulhadores. Nada foi apreendido. A delegacia só abriu inquérito para apurar o caso depois da repercussão do episódio na imprensa.
Por enquanto, quem pode se encrencar é quem pegou as cédulas, pelo crime de “apropriação de coisa achada”. O artigo 169 do Código Penal prevê pena de detenção, de um mês a um ano, ou multa, para “quem acha coisa alheia perdida e dela se apropria, total ou parcialmente, deixando de restituí-la ao dono ou legítimo possuidor ou de entregá-la à autoridade competente, dentro no prazo de quinze dias”.
Se o réu for primário, e for de pequeno valor a coisa furtada, o juiz pode aplicar somente a pena de multa.
Quando as notas de R$ 50 e R$ 100 apareceram, no dia 20 de novembro, um domingo de sol, teve pescador dizendo que retirou R$ 800 do mar. Dias depois, a notícia do “tesouro” ainda atraía gente em busca do dinheiro.
De acordo com policiais, um dos pontos de partida para a investigação seria analisar a tábua de marés para tentar descobrir de onde veio o dinheiro. A apuração, no entanto, está na “estaca zero", segundo a 10ª DP.
A Polícia Civil do Rio está em greve desde o último dia 17. Em meio à crise financeira do estado, os agentes cobram o depósito integral do salário de dezembro, o pagamento do 13º, a quitação do Regime Adicional de Serviço (RAS) e do adicional por metas alcançadas pelo segundo semestre de 2015. Eles prometem manter a paralisação até que o pagamento integral das pendências seja feito a todos os ativos, inativos e pensionistas da corporação.
O episódio da Urca chegou a ser comparado ao “verão da lata”, em 1987, quando milhares de latas, cada uma com pouco mais de um quilo de maconha, apareceram boiando no litoral entre o Rio de Janeiro e o Rio Grande do Sul.

