SÃO PAULO. Durante entrevista coletiva realizada na Polícia Federal de São Paulo na manhã desta quinta-feira, o delegado regional de Combate ao Crime Organizado da PF, Rodrigo de Campos Costa, disse que, embora a operação tenha sido focada na atividade de gráficas usadas para lavar dinheiro de propina, o ex-prefeito Fernando Haddad deverá ser chamado a prestar depoimento.
— A investigação vai apurar a responsabilidade de cada ator envolvido nessa trama. Não sabe se o dinheiro foi gasto nas gráficas ou se teve alguma outra destinação — disse o delegado, que também deve tentar tomar o depoimento do ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto.
A Polícia Federal chegou a pedir a prisão de três investigados e também conduções coercitivas. No entanto, os pedidos foram indeferidos pela Justiça Eleitoral.
A PF deflagrou na manhã desta quinta-feira a Operação Cifra Oculta para apurar crimes eleitorais e lavagem de dinheiro relacionados à campanha de Haddad, do PT, para prefeitura de São Paulo em 2012.
Trinta policiais federais cumpriram nove mandados de busca e apreensão, expedidos pela 1ª Zona Eleitoral de São Paulo, nas cidades de São Paulo, São Caetano e Praia Grande. O alvo foi a gráfica Souza&Souza, que pertencia a familiares do ex-deputado estadual Francisco Carlos de Souza, do PT.
O inquérito policial é um desmembramento da Lava-Jato e iniciou-se em novembro de 2015 em razão de determinação do Supremo Tribunal Federal para desmembrar a colaboração premiada de executivos da empresa UTC em anexos para a investigação nos estados.
O inquérito apura o pagamento, pela empreiteira, de dívidas de uma das chapas da campanha, referentes a serviços gráficos no valor de R$ 2,6 milhões.
Ao menos três delatores da Lava-Jato relataram que a gráfica recebeu o dinheiro de propina da Petrobras para pagar dívidas da campanha do ex-prefeito. O nome da gráfica foi, segundo depoimentos, indicado pelo ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto, que está preso em Curitiba.
De acordo com os delatores, os pagamentos da UTC à gráfica foram operacionalizados pelo doleiro Alberto Youssef, também colaborador da Lava-Jato, que passou três anos preso e atualmente cumpre pena em regime aberto, com uso de tornozeleira eletrônica. Youseff contou à polícia ter atendido à UTC e realizado o pagamento em forma parcelada, durante o ano de 2013, por meio de dinheiro em espécie e transferências bancárias por meio de suas empresas de fachada.
Os investigados responderão por crimes de falsidade ideológica na prestação de contas à Justiça Eleitoral, om penas de até 10 anos de prisão e multa.
A campanha de Haddad negou qualquer irregularidade.
“Com relação a Operação Cifras Ocultas, deflagrada hoje de manhã pela Polícia Federal, o ex-prefeito Fernando Haddad, por sua assessoria, informa que a gráfica citada, de propriedade do ex-deputado Francisco Carlos de Souza, prestou apenas pequenos serviços devidamente pagos pela campanha e registrados no TRE.
A UTC teve seus interesses contrariados no início da gestão Haddad na Prefeitura, com o cancelamento das obras do túnel da avenida Roberto Marinho, da qual fazia parte junto com outras empreiteiras igualmente envolvidas na Lava-Jato. O executivo da UTC, Ricardo Pessoa, era dos mais inconformados com a decisão.
O propalado repasse de R$ 2,6 milhões, se ocorreu, não tem nada a ver com a campanha de Fernando Haddad à prefeitura de São Paulo em 2012, até porque seria contraditório uma empresa que teve seus interesses prejudicados pela administração, saldar uma dívida de campanha deste administrador”, diz nota enviada pela assessoria do ex-prefeito de São Paulo.

