Fazendas ilegais de gado devastam áreas protegidas na Amazônia
Áreas da Amazônia que deveriam ser protegidas para garantir a sobrevivência de povos indígenas e pequenos agricultores vêm sendo devastadas por fazendas ilegais de gado no estado do Pará. O relatório Gado Sujo, divulgado pela Human Rights Watch (HRW), revela que essas propriedades clandestinas se infiltraram na cadeia produtiva da carne, contribuindo para o desmatamento e a expulsão de comunidades locais nos territórios do projeto Terra Nossa e da Terra Indígena Cachoeira Seca.
De acordo com a HRW, grileiros tomaram posse ilegal dessas terras, transformando vastas áreas de floresta em pastagem. Agricultores e lideranças comunitárias que denunciaram as invasões sofreram ameaças e até assassinatos — quatro pessoas foram mortas desde 2019. O Incra afirma ter mais de 50 ações judiciais em andamento para retomar as áreas, mas grande parte já está degradada.
Nas terras indígenas, o avanço da pecuária ilegal também compromete a caça, a pesca e a coleta de produtos florestais, pilares da subsistência tradicional. A pesquisadora da HRW Luciana Téllez Chávez afirmou que os moradores têm medo de circular fora das aldeias, o que dificulta a transmissão de saberes e coloca em risco a cultura local. Ela destacou que, mesmo após quase uma década da homologação da terra, o governo federal ainda não retirou os invasores.
A HRW defende medidas urgentes para conter o desmatamento e propõe a criação de um sistema nacional de rastreabilidade do gado, que impeça a comercialização de animais provenientes de áreas ilegais. Especialistas alertam que o avanço das invasões aproxima a Amazônia de um ponto de não retorno ecológico e social, e cobram ações efetivas para restaurar as florestas e proteger as populações tradicionais.
ASSUNTOS: Brasil