Oficiais da Polícia Militar ouvidos pela reportagem do jornal O Estado de S.Paulo contaram que, pego de surpresa, o fornecedor não tinha como suprir rapidamente todo o estoque da corporação. Teriam sido encomendados 2 mil artefatos explosivos. Então, granadas que seriam exportadas para a Angola foram mandadas para a PM. O problema é que a concentração de ortoclorobenzalmalonitrilo, o lacrimogêneo (CS), nos artefatos que normalmente são vendidos para o país africano é duas vezes maior que o utilizado pela polícia fluminense.
"Foi tudo tão inesperado que o governo precisou fazer uma dispensa de licitação para repor o estoque da PM. Não estavam preparados para a onda de manifestações", concluiu o deputado estadual Luiz Paulo (PSDB), que fez a pesquisa no Siafem a pedido do jornal.
Com a queda do estoque, as tropas do Batalhão de Choque precisaram utilizar até bombas de gás lacrimogêneo com validade vencida. De fato, um invólucro fora de validade utilizada pela polícia para conter um protesto em Niterói, no dia 19 de junho, foi recolhida por membros da Comissão de Direitos Humanos da OAB.
O objeto foi encaminhado ao Ministério Público, que abriu inquérito para investigar se houve excesso nas ações de repressão da polícia durante os protestos. Naquele dia, a Ponte Rio-Niterói precisou ser fechada pela Polícia Rodoviária Federal, para evitar a ocupação pelos manifestantes. Houve depredação em vários pontos da cidade e invasão da estação das barcas.
A PM também precisou recorrer à Polícia Civil. Na última terça, 1.500 bombas de gás lacrimogêneo da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), tropa de elite da Polícia Civil, foi enviado ao Batalhão de Choque da PM. A Core recebeu em janeiro 3.900 artefatos desse tipo do Ministério da Justiça, para treinamento de seus agentes.

