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Cidades ‘classe C’ mudam perfil político e se afastam da esquerda

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RIO — Em quatro anos, o perdeu 10 milhões de nas cidades brasileiras onde a renda familiar média da população está entre R$ 2 mil e R$ 8,6 mil — a classe C, na classificação elaborada pela Fundação Getulio Vargas (FGV). Esse grupo de 3.294 municípios brasileiros que não estão nem no topo nem na base da pirâmide social deu a (PT), no primeiro turno de 2014, 27,3 milhões de votos, contra 26,1 milhões de (PSDB). No último domingo, (PT) teve apenas 17,4 milhões de votos, contra 38,6 milhões de — se a eleição se desse apenas nas cidades “classe C”, o candidato do PSL venceria no primeiro turno, com 51,9% contra 23,4% do presidenciável petista.

São números que dão concretude ao que é sugerido por cientistas políticos e apontado nas pesquisas de intenção de votos: se ainda predomina no eleitorado mais pobre e é largamente derrotado na elite, o PT viu sua base política decair fundamentalmente por ter perdido o apoio nesse estrato.

Essas conclusões fazem parte da atualização, a pedido do GLOBO, da tese de doutorado em ciência política da pesquisadora Priscila Lapa, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Em 2016, ela publicou o trabalho “Como votou a classe C nas eleições de 2014”, que buscou mapear em quem votou o eleitor de cada classe social — como o voto é secreto, não há como saber a renda de quem digita os números na urna.

VOTOS SOMAM 74,5 MILHÕES

A especialista criou um modelo estatístico que alia ao fator principal da renda familiar outras variáveis como índice de Gini, IDH e escolaridade média nos 5.565 municípios brasileiros para chegar à lista de 3.294 cidades onde está concentrada essa maior parcela do eleitorado. A partir daí, foi feito o cruzamento com os dados da votação publicados pelo TSE, que oferece os números por município. Foram 72,6 milhões de votos válidos desse grupo no primeiro turno de 2014 e 74,5 milhões agora. Esse montante representa 69,6% dos votos válidos totais, que somam 107 milhões.

— Não queríamos trabalhar com intenção de votos, que é onde se pode saber a renda de cada eleitor entrevistado, mas com o resultado da votação, muito mais preciso. Foi uma resposta muito satisfatória no sentido de mostrar como a classe C votou — diz a pesquisadora.

Priscila analisa que a população da classe C vem se conectando mais à eleição.

— O debate eleitoral no Brasil sempre foi muito marcado pelas classes mais altas, informadas e de maior influência nas diretrizes políticas e econômicas, e pelas classes mais baixas, que são receptoras imediatas dos programas de governo. A classe C ficava esmagada. Com as redes sociais, a insatisfação pela crise econômica e casos de corrupção, entre outros motivos, essas pessoas puxaram a tomada de decisão para si. Em 2018, o PT não conseguiu dialogar com esse eleitorado.

O economista Marcelo Neri, diretor da FGV Social e ex-presidente do Ipea, avalia que o fenômeno eleitoral está relacionado à reversão de ganhos dessa parcela da população. Ele destaca que, entre 2003 e 2014, 52 milhões de brasileiros ingressaram na classe C. O contingente passou de cerca de 66 milhões para 103 milhões. Nesse mesmo período, a renda do cidadão mediano cresceu 95%.

A partir de 2014, os efeitos da recessão, que apareciam aos poucos nos dados oficiais, começaram a surgir no dia a dia da população. A renda do brasileiro mediano caiu 10,95%, e o número de pessoas na classe C encolheu pela primeira vez, de 118 milhões, em 2014, para 116 milhões, em 2015, os últimos dados disponíveis.

— A grande inflexão ocorrida no comportamento de ascensão de renda ocorreu no último trimestre de 2014, logo após a eleição passada — destaca o especialista, lembrando que fatores subjetivos, como a falta de confiança nas instituições, também ajudam a explicar a mudança de humor da classe média. — Foi uma década perdida para esse grupo da sociedade.

A Baixada Fluminense é um exemplo dessa guinada da classe C. Lar de quase 2,7 milhões eleitores, a região sempre foi estratégica para as vitórias petistas. Em 2014, Dilma Rousseff venceu Aécio Neves nos dois turnos. No segundo, obteve 67% dos votos válidos, abrindo uma vantagem de mais de 600 mil votos. A mudança política experimentada pela Baixada tem pouco a ver com motivações ideológicas. O desencanto com a classe política e a disparada nos índices de violência são os argumentos citados pelos eleitores da região para explicar a migração para Bolsonaro.

Com a maior taxa de homicídios do Brasil, Queimados é um exemplo da mudança: 59% escolheram Bolsonaro, contra 18% que votaram em Haddad.

A sensação de piora na qualidade de vida é geral: a crise provocou o aumento do desemprego e da violência. Luiz Claudio da Conceição Torres, de 45 anos, vive essa realidade de perto. Morador de Queimados, Bilunga, como é conhecido no bairro Vila Nascente, está desempregado desde dezembro. Para ele, o combate à violência é a principal proposta de Bolsonaro. A cidade registrou, em 2016, 134,9 mortes violentas a cada 100 mil habitantes.

— A bandidagem está correndo solta, estão assaltando até de dia — afirma.

Também desempregado, Danilo Souza da Silva, de 30 anos, mora no Campo da Banha, bairro de Queimados sitiado pela guerra entre facções rivais.

— Eu deixei de votar no PT por tudo isso que aconteceu. Essa crise financeira e todas essas coisas são culpa do PT — argumenta.

A desesperança com os políticos tradicionais também marca o discurso da dona de casa Maria Cistina Ribeiro, de 51 anos, moradora do bairro da Cancela, em Japeri, cidade com os piores indicadores sociais da Baixada.

— A proposta dele (Bolsonaro) é necessária. Não dá para saber se vai dar certo, mas a gente tem que mudar — explica, acrescentando a precariedade de serviços. — A vida aqui não melhorou nada. Não temos maternidade, para ir a uma emergência temos que sair da cidade.

O cientista político Carlos Ranulfo, professor da UFMG, avalia que os dados mostram uma insatisfação do eleitorado não só em relação ao PT, mas à política como um todo. A classe C representa, para ele, o humor generalizado contrário à política tradicional.

— É um voto no que parece ser novo, ainda que parte do eleitor não saiba exatamente o que é essa novidade — analisa. — O que une é a rejeição à política.

NORDESTE AINDA FIEL

O Nordeste é o reduto onde o PT conseguiu preservar a fidelidade de boa parte dos votos da classe C. O GLOBO entrevistou três desses eleitores em Salvador. O porteiro Cícero Lúcio dos Santos tem 53 anos, 30 dos quais na capital baiana, onde chegou quando deixou um distrito da zona rural de de Santana do Ipanema, a 207 quilômetros de Maceió.

— Hoje está melhor viver lá do que aqui. E isso tem a ver com o governo do PT, mudou com o Lula. Eu vejo, ninguém me conta, não.

Doutoranda na Universidade Federal da Bahia (UFBA), Nádia dos Santos da Conceição, 36 anos, se considera “prova viva” dos governos petistas:

— Sou uma entre tantos milhares de pessoas que conseguiram ascensão intelectual e social a partir dos governos do PT.

A dona de casa e faxineira Silmara Reis Nascimento, de 25 anos, é fiel ao PT pela opinião de que é o partido que mais olha para os pobres. Ela é beneficiária do Bolsa Família e tem três filhos pequenos.

— Voto no PT desde que eu comecei a votar. Acho que eles são mais humildes, estão mais com o povão. Eu lembro o que eu via no bairro.(Colaborou Regina Bochicchio)

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